A razão das 8 horas de trabalho diárias

No início dos tempos, o labor do homem estava ligado intrinsecamente às suas necessidades sobrevivenciais. As estações ditavam a urgência na satisfação dessas necessidades. O homem vivia em estado de natureza, alinhado totalmente por ela. Existia o conceito de tempo, mas não uma medição exata do tempo. Aquando da Revolução Industrial (que terá começado gradualmente a partir de 1760) os empresários, pretendendo maximizar a produção, careciam de 24 horas diárias laborais, todos os dias. Nesse contexto, aos trabalhadores para alimentar a exigência da máquina de produção, era imposto um horário de 10 a 16 horas diário (10 a 12 horas para as crianças). O relógio marcava o tempo produtivo.

Em 1886, fundou-se nos Estados Unidos da América a Associação das Oito Horas, repartindo um dia em três vertentes: oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito horas de descanso.

O dia 1 de maio assinala o Dia do Trabalhador, pois corresponde à primeira manifestação de 500 mil trabalhadores nas ruas de Chicago e a uma greve geral em todos os Estados Unidos, ocorrida em 1886. Até então, os trabalhadores jamais exigiram menos tempo de trabalho.

Em Portugal, os trabalhadores do comércio e da indústria conquistaram, em 1919, as 8 horas diárias. Os operários agrícolas (ou jornaleiros) recebem esse limite apenas em 1962, pondo fim ao regime do trabalho (literalmente) de sol a sol.

Hoje, o modelo das 8h não é questionado.

Não se indaga da razão do tempo de descanso ser igual ao de trabalho. A arquitetura da vida é pensada em função de conceitos de gestão, competitividade, produtividade e maximização.

Ainda, os avanços na tecnologia fazem importar o tempo de trabalho para o tempo de lazer, não havendo uma linha de demarcação temporal (o relógio como medida de tempo desaparece, e é substituído pela voragem do trabalho a fazer). Surge uma (con)fusão entre tempo de trabalho e tempo de lazer.

O tempo de trabalho insidiosamente aumenta e a auto-disponibilidade pessoal diminui. O tempo de deslocação para o trabalho cresce, também, erodindo o tempo de descanso.

Trabalha-se mais, para produzir mais e há que trabalhar mais, para consumir mais.

Urge repensar o tempo de trabalho. Na linha do personalismo ético, o homem nasce livre, como ser único e irrepetível, e não pode para ganhar a vida, perdê-la.

Paula Quintas