PSD em contraciclo esmaga PS irreconhecível

Hecatombe em tons de rosa

graficos

É preciso recuar a 2001 – altura em que o PPD-PSD de Alfredo Henriques cilindrou (50,82%) a candidatura de Elísio Costa Amorim (32,96%) – para encontrar paralelo tão negativo, entre socialistas e social-democratas, na compita eleitoral autárquica concelhia. Nem mesmo quando o PPD alcançou o seu melhor resultado de sempre (1979, altura em que Aurélio Pinheiro recolheu 51,21% dos votos expressos) o Partido Socialista bateu tão fundo (alcançou então, 35,04%).

Orlando Macedo

Para Margarida Gariso, não é tanto a derrota, em si, o que mais a penaliza; são, antes, os números alcançados, surpreendentemente baixos, em evidente contraciclo com a maré socialista que ontem varreu o país, de lés-a-lés. Aqui ao lado, por exemplo, S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis, há longos anos bastiões laranja ‘caíram’ nas malhas do PS. Mas em Santa Maria da Feira, mais uma vez, os socialistas ficaram-se nas covas. Eleição após eleição, espanta quase sempre o desfasamento evidente entre discurso e objectivo(s). Desta vez, a candidata foi cedo para o terreno, empenhou-se pessoal e profundamente na mudança de paradigma, mas – percebeu-se ainda antes da contagem final de ontem à noite – não foi capaz de afirmar-se em autonomia.
O melhor exemplo de que no seio do PS feirense as estratégias se desenham em cenários mirabolantes – e, nalguns casos, absolutamente divorciados da realidade – foi a forma desastrada como se encarou o caso ‘Milheirós de Poiares’. Logo à primeira impressão, se percebia que o PS se enredara num desastre à espera de acontecer. Ao desistir de apresentar candidatura à Assembleia de Freguesia, corria o risco de perder (como perdeu) um bastião no conjunto de Juntas de Freguesia; ao apoiar (explicita e assumidamente!!…) uma candidatura Independente, que abraçava a secessão [transferência para S. João da Madeira] arriscava-se a ferir (como feriu) irremediavelmente as possibilidades que – eventualmente – Margarida Gariso ainda acalentasse, enquanto candidata à Câmara da Feira. O PSD agradeceu a graça concedida…
Do episódio, ressalta duas perspectivas: uma, a de que nem a candidata teve a sageza (ou, se a teve, não a conseguiu impor) de, pelo menos, adiar a divulgação pública da posição de apoio do PS aos trânsfugas; outra, deveras inquietante, a de que o Partido Socialista local foi obrigado a seguir uma cartilha imposta por estratégias que extravasam os valores porque se deveria reger uma candidatura à CM Feira. Seja ela qual for, tenha ela a origem que tiver.

A vez de Márcio Correia
Nos interstícios da luta fraticida que nunca deixou de se travar no interior do PS santamariano, emerge agora a vez de Márcio Correia se perfilar, em regime de natural ‘sucessão’. Mas não se trata de mera possibilidade; é, antes, obrigação a que dificilmente poderá esquivar-se, principalmente depois das posições publicas de contestação à direção do seu partido, que tem vindo a assumir ciclicamente. O advogado feirense, que se ‘fez’ na ‘JS’ e cresceu na periferia do poder rosa, nunca prescindiu de segurar parte das rédeas do aparelho local dos socialistas, fica agora com caminho aberto para dar largas à sua (legítima) ambição. Se o não fizer agora, dificilmente poderá voltar a reclamar oportunidade. E legitimidade.
Para o PS feirense, a tarefa que se segue não pode ficar-se pelo lamber-de-feridas. É necessário escalpelizar as razões que amarram sistematicamente o ‘partido da rosa’ a um plano de subalternidade, face a um PSD pletórico, que tem uma receita para o poder, a aplica e a perpetua, com resultados que nem as pequenas e episódicas convulsões eleitorais conseguem abalar. Se o Partido Socialista não conseguir arrepiar caminho, é bem provável que na travessia do deserto a que vai ter de se sujeitar (pela enésima vez) acabe por se ver ultrapassado por um congénere que, vindo de trás, se apresenta fresco e objectivo, na prossecução de um plano que admite correr maratonas para (se) chegar à frente: o Bloco de Esquerda, é claro. Esse que, a cada acto eleitoral, vai consolidando posições, (quase) sempre à custa do PS, como acontece agora na Assembleia Municipal, em que Moisés Ferreira passa a ter companhia correligionária. Já o CDS, ganha 0,5%, no cômputo geral, mas deixa apontamentos interessantes nas Freguesias.

Emancipação sem-mácula
Um candidato que alarga o fosso de votação de que já dispunha para mais de 100%; um candidato, que ganha para o PSD a 14ª Câmara Municipal mais importante do país, sem recurso a alianças eleitorais; um candidato que, sob a sigla de um partido (PSD) em perda vertiginosa, em termos nacionais, não só resiste à força emergente (PS) como lhe inflige uma derrota histórica, é um candidato ultra-legitimado para exercer o poder para que foi mandatado. Também mais responsabilizado; mas com isso, já o fianense mostrou que pode ele bem…
Mas deveras importante, é que, com os resultados ontem alcançados, Emídio Sousa fica definitivamente liberto do fantasma alfredohenriqueano, podendo assumir, agora, os seus próprios desígnios. O político de Fiães, que chegou pé-ante-pé ao executivo feirense e um dia surgiu como candidato à ‘sucessão’ de Alfredo Henriques (derrotando as enormes resistências internas que se lhe opuseram) ganhou, finalmente, ontem, e por si só, direito ao seu lugar na história do município. E ontem, ‘apenas’, porque desta vez o conseguiu sem o anátema da ‘sucessão’; isto é, sem mácula da sombra tutelar do antecessor. Finalmente, Emídio emancipou-se. Parabéns.