Processo Marquês

Com azedume (mas sem histerismos)

socratesConheci pessoalmente José Sócrates na Covilhã, em 1978, altura em que (sendo eu estudante no ensino nocturno) lhe ganhei as eleições para a Direção da Associação de Alunos do Liceu da Covilhã, à frente de uma lista de ‘independentes’. Lembro-me de um Zé Sócrates (como era comumente conhecido, de estilo desengonçado, mau-feitio, tímido q.b., mas senhor, já então, de discurso estruturado e mobilizador. Sem conseguir afiançar, julgo que militava ele, então, na JPD (hoje, JSD) tendo como seu braço-direito um tal Pedro Roseta (meu amigo e sobrinho/afilhado do então eminente Pedro Roseta, destacado dirigente do PPD).
Serve o exercício de memória apenas para recordar que, já nessa altura, o jovem Sócrates alardeava um carisma que lhe augurava grandes voos políticos, factor que me foi sobremaneira impressivo, o que agora me leva a assumir que, este, não é um texto de sentido objectivo e, ainda menos, deapaixonado. E talvez por isso – e só por isso – tenha, durante muito tempo, alimentado a secreta esperança (tal como muitos portugueses, como é sabido) de que o cerne da investigação do ‘Processo Marquês’ assentasse num jogo de equívocos, quiçá, numa estratégia de política subterrânea tão comum nas lutas pelo poder político. Ora, encerrado o segundo capítulo da ‘novela Sócrates’, com título de capa ‘Processo Marquês’, subsiste-me, então, um turbilhão de sentimentos à volta do caso.
Um, o de alívio, radica em quatro anos de espera para se conhecer a síntese de uma acusação em que o Ministério Público (MP) aponta ao antigo primeiro-ministro José Sócrates um total de 31 crimes, num rol que vai de corrupção passiva, enquanto titular de cargo político, a branqueamento de capitais, passando por falsificação de documento e fraude fiscal qualificada.
Outro, o de que, independentemente do que a defesa do ex-primeiro ministro vier a esgrimir, é avassalador o volume de ‘provas’ que é agitado no processo, sublinhando o sentimento de que há ali demasiado fumo, para que não tivesse havido muito fogo… Por mais que o coração não queira, a cabeça obriga-me a curvar perante a avalancha de alegadas evidências.
Outro ainda, o de comiseração e desalento, por não poder deixar de sentir uma imensa frustração acerca do personagem (que, sem deslumbres, poderia ter sido, pela positiva, uma figura marcante da nossa história recente) perante o abandono do conjunto de valores dos quais deveria ter sido primeiro defensor.
Mais outro, por ainda não querer acreditar que tivesse sido possível, num sistema democrático, alegada e democraticamente escrutinado, montar-se um cenário de lesa-Pátria, sem paralelo em qualquer momento de 900 anos de História de um povo.
E ainda mais outro, assente na estupefacção suscitada pelo comportamento do aparelho judicial, que deixou grassar uma imagem negativa junto da opinião pública, desde o primeiro-acto, com a detenção de Sócrates sob os focos televisivos, até às inenarráveis ‘fugas (?!…) de informação’ oriundas de um gabinete em que, alegadamente, o acervo da investigação estava circunscrito a meia-dezena de pessoas.
Afigura-se cada vez mais junto da opinião pública, que dificilmente a defesa de José Sócrates conseguirá produzir resposta satisfatória às múltiplas acusações que o visam. Por (e também por isso) se percebe cada vez menos que seja a própria máquina da Justiça a delapidar o capital acusatório, denegrindo-lhe a credibilidade através das continuadas ‘fugas de informação’. Trata-se de um factor que cala mal no imo de quem, mesmo para os caídos, espera – exige – um tratamento de acordo com os preceitos legais e constitucionais. Afinal, carga em excesso, pode abater a mula…

Notas finais:
1 – Confesso que hesitei fortemente em assumir o tom de sensibilidade pessoal, na  elaboração deste texto, sujeitando-me, como me sujeito, a díspares interpretações de quem me lê. Mas tenho reparado que não estou sozinho no desiderato. Ontem mesmo [sábado, 14 de Outubro], ouvi um colega conduzir uma entrevista a José Sócrates, na RTP 1, em que, para além de sistematicamente tentar impedir as respostas do ex-primeiro ministro às questões que levantava, ainda conseguiu rematar a entrevista com uma pergunta canalha: “Como é que paga as suas contas no dia-a-dia?”, inquiriu o entrevistador.
Com a baixeza, Vítor Gonçalves, desnudou-se, confirmando que não conseguiu despir a pele de cidadão, para vestir a de entrevistador neutral, como ali lhe competia, em nome do serviço público. Assim, não prestou um bom serviço ao apuramento da verdade; não ajudou a missão do MP; e José Sócrates, indubitavelmente, capitalizou, mais que não fosse por piedade, que o povo não de gosta de ver a vergasta cair sobre prostrado.

2 – Na mesma linha, o Diário de Notícias revelava ontem (Domingo) uma nota oriunda do Ministério Público, em que se diz que entre 2005 e 2011 o antigo primeiro-ministro terá pedido emprestado mais de 90 mil euros, oriundos de “Carlos Santos Silva, familiares e dois créditos” [bancários].
Num país em que, naquele período, metade dos cidadãos portugueses andou a viver de crédito e largamente acima das suas possibilidades (argumento caro a Passos Coelho, por exemplo) e havendo alguém que recebia empréstimos mensais de pouco mais de mil euros, argumentar tal disparate é exegro claramente dispensável e pecúlio de simpatia que cai directamente no regaço… de José Sócrates.