Saint Mary Store

(n)A montra do kitch pindérico

A coisa está a ficar séria. Está em curso um programa de avacalhamento de uma das línguas mais eruditas (completas) que o mundo até hoje conheceu: a Língua Portuguesa. Troca-se ‘seminário’por ‘bootcamp’, ou ´pôr-do-sol’ por ‘sunset’ – dentre tantos anglicismos deploráveis, a esmo. Agora, a rapaziada que anda a brincar com a gestão da imagem cultural da Feira, inventou a ‘Saint Mary Store’, denominação já a raiar o bacoquismo kitch, marcante de (mais) um momento deprimente no historial cultural da terra. O Município deu-lhe cobertura. E abriu (abre) os cordões à bolsa.

Espanta a candura com que o vereador da cultura (que preferiu um ‘souvenir’ a uma ‘lembrança’) e o presidente da câmara, que defende que “temos de aproveitar o que temos de bom”, pulverizaram uma denominação cultural contingente quase-milenar (‘Santa Maria da Feira’) trocando-a por uma pepineira anglicista, que não só nada (nos) acrescenta, como – e antes – (nos) vulgariza, diluindo a identidade cultural única e legítima, na amálgama denominatória comercial.

A iniciativa é boa e celebra-se; mas havia necessidade de avacalhar o retrato cultural do município? De genuflexar a outras identidades culturais… concorrentes? De nos colocar na montra do kitch pindérico?… Têm vergonha do gentílico ‘Santa Maria da Feira’?…

 

(alguns) Apontamentos mesmo parvos

1 – No Youtube, estão disponíveis dezenas de versões do tema ‘Santa Maria da Feira’, com que o músico Devendra Banhart homenageou a cidade e o concelho porque se apaixonou. Da harpa ao ukulele e ao trompete, é só escolher entre versões, que, no seu todo, chegam a quase 10 milhões de visualizações! Mas é uma pena, porque bem poderiam ser 20 ou 30, ou 40 (80, eu sei lá) milhões, se o rapaz Banhart, antes de por a coisa a rolar, tivesse pedido ajuda aos markteers da Câmara e da Feira Viva, que num passe chico-espertote, haveriam de o convencer (ao Devendra, claro) a chamar à cantiga… ‘Saint Mary’s Fair’, que é muito menos parolo (ou muito mais in, dependente do ponto-de-vista) e muito mais british, you see?…

 

2 – Não tarda, recebemos no CF uma ‘nota de imprensa’ (um press-realize, ‘tão a ver?) assinado por António Bastos, a dar conta da mudança de nome da sua colectividade para ‘Sunset Association of Mosteirô Town’.

 

3 – Por último, façam lá o favor de imaginar a Volkswagen a alinhar pela cartilha dos nossos especialistas em venda de imagem a retalho: era chegar a Londres e rebatizar logo o veículo para People’sCar. Um fartote de ridicularia.

 

Por favor “não me obriguem a vir para rua gritar / que é já tempo d’embalar a trouxa / e zarpar / tiriririri buririririri / tiriririri paraburibaie” (José Afonso – ‘Venham Mais Cinco’ |1973)