De branco angelical

 

Fátima Araújo, 

Jornalista

Vestidas de branco, nesse branco puro, singelo, imaculado, que amplia a simplicidade da beleza, eram às dezenas as meninas com vestidos brancos que eu observava, ao lado da minha mãe.

Era sempre feriado municipal nesse 20 de Janeiro e eu trocava os fatos de treino dos dias de aulas na escola por vestidos multicor, com folhos, que as primas de França me traziam nas férias de Verão. Aperaltava-me para ir ver as meninas de branco, com faixas coloridas no vestido e com fogaças e bandeirinhas de papel à cabeça, percorrerem a baixa da cidade, na procissão das Fogaceiras.

Observava-as, na sua candura angelical. Cobiçava-lhes os cabelos encaracolados aos cachinhos. Sentia-lhes o perfume exalar dos braços esticados ao alto, para segurarem as fogaças à cabeça. Sorria com elas, cada vez que elas sorriam para as máquinas fotográficas que sobre elas disparavam flashes. Deixava-me encandear por aquela moldura humana branca tão sublime quanto holística. Imaginava-me dentro de um daqueles vestidos encantadores de tão simples e despretensiosos que eram na sua concepção. Respirava aquele ambiente pueril que purifica e expurga tudo o que é impuro.

Mas nunca me vesti de Fogaceira. E nunca participei na procissão das Fogaceiras. Por alguma razão que desconheço, a minha mãe, católica devota que me arrastava com ela para festas, romarias e procissões, nunca me inscreveu para ser uma das meninas de fogaça à cabeça.

Ainda assim, já fui um anjo branco… Numa outra procissão, numa outra freguesia, em que a minha mãe alugou umas asas brancas, uma túnica branca acetinada até aos pés e umas sabrinas de ballet, para eu ser a mensageira da protecção que ela pedia a Deus, para todos nós. E, nesse dia em que me vesti de anjo branco, senti-me, finalmente, na pele de Fogaceira!

Naquele tempo, eu não tinha consciência do peso secular de 500 anos que tem a festa e a tradição feirense das Fogaceiras. Mas cedo me apercebi que tudo aquilo era majestoso, de tão singelo e genuíno, de tanta inocência vestida de branco.

Vinham forasteiros à vila (hoje, cidade), vinham emigrantes, vinham famílias inteiras e pais babados com as suas meninas, vinham repetentes e novatos, que esgotavam todas as fogaças vendidas nas confeitarias e nas bancas dos feirantes instaladas no centro histórico. Quantas mais houvesse, mais se vendiam. A ponto de, em determinados anos, eu ficar chateada com a minha mãe porque, quando ela chegava (tarde demais) ao café-confeitaria da minha preferência, já estava tudo esgotado. Ainda hoje, sou de opinião que as melhores fogaças são as desse café-confeitaria, a que recorro sempre que me apetece fogaça ou sempre que ofereço fogaça a alguém.

A tia que cozia no forno massa de fogaça por altura da Festa das Fogaceiras e na Páscoa já não tem saúde para isso… Dedada aqui, dedada ali, eu lambia o meu indicador com esse preparado de ovos, farinha e açúcar, cuja receita a minha tia adulterava, juntando-lhe um cheirinho de vinho do Porto! “É para dar personalidade à fogaça”, dizia ela! O aroma da cozedura continua a ser uma das mais inebriantes sensações para quem, como eu, gosta das lides da cozinha. É o chamariz para quem passa na rua ser tentado a fazer-se convidado, entrar e servir-se desse pão, outrora dos pobres, transformado em doce regional de excelência e em prestígio gastronómico.

O sabor da história feirense está sempre à minha mesa e coloco-o muitas vezes à mesa dos outros, porque ofereço muitas fogaças, ao longo do ano, mesmo fora dos períodos festivos. O prazer que sinto ao degustá-las, ao partilhá-las e ao oferecê-las às pessoas de quem gosto vai para além da gula (e eu sou muito gulosa!) de quem gosta de doces. É um prazer sensorial que excede o paladar. É todo um reavivar de recordações. É o voltar a ser tocada por toda uma experiência quinésica. É o alimentar um sentimento de pertença a um todo colectivo. É identificar-me com a alma de uma terra e das suas gentes. É sentir que o branco angelical será sempre sinónimo de amor, seja em que reino espiritual for!