Tradição secular com 513 anos

 

Com 513 anos de história, a Festa das Fogaceiras é a mais antiga e emblemática festividade do concelho de Santa Maria da Feira. Cruzando o religioso e o popular numa relação de perfeita simbiose, marcada pelo equilíbrio e respeito, mas também pela necessária transformação, esta festa é um símbolo de união, partilha e identidade colectiva das Terras de Santa Maria. A Festa das Fogaceiras é também celebrada anualmente pela diáspora em Caracas (Venezuela), no Rio de Janeiro (Brasil) e em Pretória (África do Sul), expressando o valor e o espírito dos Feirenses no Mundo.

História

A Festa das Fogaceiras teve origem num voto ao Mártir S. Sebastião, feito pelo povo da Terra de Santa Maria, numa altura em que a região teria sido assolada por um surto de peste que dizimou parte da população. Em troca de protecção, o povo prometeu, em cada dia 20 de Janeiro, uma procissão e a oferta de um pão doce e delgado, habituado a ser confeccionado para ocasiões especiais: a fogaça.

Esta devoção popular do culto a S. Sebastião recrudesceu na época medieval, devido às catástrofes da altura, como aconteceu em 1505, levando a que manifestações religiosas anteriores, como a festa do Espírito Santo, promovida na época da rainha Santa Isabel, donatária do Castelo da Feira, fossem convertidas no cerimonial da devoção ao Mártir, sempre acompanhado pela fogaça, o pão doce distribuído pelos pobres, dando continuidade à partilha comunitária e assistencial já vivida.

No início do cumprimento do voto, é referida a existência de três fogaças confecionadas especificamente para o ritual da devoção, que eram levadas em procissão por três jovens donzelas, desde o Castelo até à Igreja Matriz, onde eram benzidas, cortadas e repartidas pelo povo aí presente, servindo de paliativo contra os males do mundo: a fome, a peste e a guerra.

Em 1758, continuam a ir em procissão cinco jovens: três delas levam à cabeça as fogaças de um alqueire cada uma; uma leva o tabuleiro com cinco velas; e outra leva à cabeça a miniatura do Castelo da Feira “ornado de muitas bandeiras”. Nesta altura, a fogaça poderia já ter o formato que tem hoje, com a representação das quatro torres do Castelo de Santa Maria, também visto como símbolo de união deste vasto território que outrora se designou por Terra de Santa Maria.

Com o cerimonial um pouco diferente após a implantação da República, acrescenta-se o Cortejo Cívico, realizado antes da Missa Solene, e que sai dos Paços do Concelho até à Igreja Matriz do Espírito Santo, incorporando dezenas, e por vezes, centenas de meninas calçadas e vestidas de branco com uma faixa de cor à cintura – as fogaceiras –, levando à cabeça a doce Fogaça da Feira, mantendo-se a tradição dos três mandados – as três fogaças maiores –, o tabuleiro com as velas de cera e o Castelo em miniatura, ornamentados com bandeiras feitas de papel colorido, recortadas de maneira a que lembrem as muralhas do Castelo, acompanhadas, no couce do cortejo, pelas autoridades políticas, administrativas, judiciais e militares e outras personalidades de relevo na vida municipal.

A Procissão solene realiza-se a meio da tarde, congregando o Cortejo Cívico com os símbolos religiosos, destacando-se o Mártir S. Sebastião e a Nossa Senhora do Castelo. Durante o Estado Novo, os três mandados – três grandes fogaças – deixaram de ser repartidos pelo povo presente na cerimónia, passando a ser distribuídos pelos reclusos da prisão da Feira e pessoas consideradas mais carenciadas. Actualmente, os mandados são enviados às entidades religiosas, militares e administrativas do concelho de Santa Maria da Feira.

Tal como outrora, hoje as gentes do concelho de Santa Maria da Feira têm a oportunidade de manifestar o culto a S. Sebastião numa festa e num voto, que é a fogaça, representando a figura do Castelo da Feira, símbolo de união e de identidade colectiva deste vasto território repartido por vários concelhos e que outrora pertenciam à Terra de Santa Maria. Manda a tradição que, por ocasião da Festa das Fogaceiras, os santamarianos enviem fogaças aos familiares e amigos que se encontram longe.

Uma referência do Turismo Religioso

Com rituais que perduram no tempo, a Festa das Fogaceiras é uma das maiores manifestações religiosas do Norte de Portugal. As meninas fogaceiras, que transportam a fogaça à cabeça no Cortejo Cívico e majestosa Procissão, vestidas e calçadas de branco com faixas coloridas à cintura, são o ícone desta festa secular.

O crescente envolvimento da comunidade local na Festa das Fogaceiras é um desígnio do Município de Santa Maria da Feira. Escolas, famílias, paróquias, associações culturais e desportivas e comércio local são anualmente chamados a participar de múltiplas formas na organização, preservação e promoção desta festividade secular. O objectivo é que todas as meninas do Concelho reúnam condições para participar na Festa das Fogaceiras, integrando Cortejo Cívico e a Procissão de 20 de Janeiro, responsabilidade que se pretende cada vez mais partilhada e participada pelos diferentes agentes do território.

Cantinho da Fogaceira

Desde 2015 que a Festa das Fogaceiras tem um espaço específico para empréstimos e doações de trajes, que fomentou na comunidade um movimento solidário em torno desta festividade.

O Cantinho da Fogaceira dispõe de um stock limitado de vestidos, sapatos e acessórios para empréstimo, parte deles adquiridos pela organização e outros doados por famílias de meninas fogaceiras. Aqui é também disponibilizada informação e aconselhamento sobre as normas de bem trajar e postura nos momentos mais solenes.

No Cantinho da Fogaceira funciona ainda um espaço de ateliê, para transmissão do saber-fazer artesanal associado à preparação das centenas de bandeiras coloridas de papel de prata que decoram as fogaças transportadas pelas meninas fogaceiras em tabuleiros de madeira, também eles minuciosamente decorados de forma artesanal por funcionários municipais.

Programa recheado

O programa cultural da Festa das Fogaceiras percorre todo o mês de Janeiro com actividades e eventos dirigidos a vários públicos, centrados na promoção dos agentes culturais locais e em produções inéditas em estreia absoluta [música, teatro, dança, oficinas e workshops, mostras e exposições, serviços educativos, desporto e gastronomia]. Sendo uma festa que cruza o religioso e civil, que envolve a participação de centenas de crianças no dia 20 de Janeiro e que contempla um vasto e diversificado programa de animação ao longo de todo o mês, a Festa das Fogaceiras tem a particularidade de abranger diversos tipos de públicos – infantil, adulto e sénior – com áreas de interesse diversificadas: tradição, gastronomia, música, teatro, exposições, desporto ou recreio.

 

Canção da Fogaceira

Música: Paulo de Sá

Letra: Carlos Morais

Data: 1942

 

I

Fogaceira linda e nova,

Deixa-me tirar a prova

Duma fogaça das tuas;

Vendendo-as assim a esmo,

São pedaços de ti mesmo

Que vendes por essas ruas!

II

Quando vais, ó fogaceira,

Vender fogaças à feira,

Vais tão cheiinha de graças

Que nos gestos e meneios

As fogaças lembram seios

E os seios lembram fogaças!

III

Tuas fogaças loirinhas

São certamente irmãzinhas

Das fogaças do teu peito;

Só assim, dessa maneira

Se compreende, ó fogaceira,

Que as vendas todas a eito!

(Estribilho:

Fogaceira minha,

Que linda que és

Com a chinelinha

Toda bordadinha

Na ponta dos pés;

Quando vais andando,

Tens o encantamento,

De rosas dançando,

De lírios bailando

Nas asas do vento!)

I

Fogaceira linda e nova,

Deixa-me tirar a prova

Duma fogaça das tuas;

Vendendo-as assim a esmo,

São pedaços de ti mesmo

Que vendes por essas ruas!

 

 

II

Quando vais, ó fogaceira,

Vender fogaças à feira,

Vais tão cheiinha de graças

Que nos gestos e meneios

As fogaças lembram seios

E os seios lembram fogaças!

III

Tuas fogaças loirinhas

São certamente irmãzinhas

Das fogaças do teu peito;

Só assim, dessa maneira

Se compreende, ó fogaceira,

Que as vendas todas a eito!