Momentos de vida com o meu Tio D. Florentino de Andrade e Silva

 

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Fernando Seabra  de Andrade e Silva

Nasceu a 23 de Março de 1933
Formado em medicina pela Universidade do Porto em 1958.
Especialidade em radiologia em 1964.
Assistente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Director do Departamento de Imagem do IPO do Porto desde da fundação até a sua aposentação.

O autor é sobrinho de D. Florentino, por parte do pai, Porfírio de Andrade e Silva, um mosteiroense que foi Assistente da Faculdade de Medicina e um grande representante do nosso Concelho em terras de Gondomar, de cuja Câmara Municipal foi presidente.
Por se tratar – de entre todos os testemunhos que recebemos – do texto mais intimista e familiar, assinado por um dos mais velhos membros da família, decidimos fechar o ciclo de trabalhos iniciado em Janeiro passado, com estes apontamentos de memória do Dr. Fernando de Andrade e Silva, na linha do que, mensalmente, ao longo do corrente ano, aqui apresentámos testemunhos e depoimentos de homenagem à memória do ilustre feirense D. Florentino de Andrade e Silva.
A Direcção

 

Duas datas Marcantes
Dezembro de 1954.

Nas férias do Natal. Ainda aluno do 4º ano da Faculdade de Medicina, estava em Lisboa fazendo companhia a um familiar, em tratamento no Instituto de Oncologia que ainda não era possível fazer no Porto, quando li a notícia da nomeação do Padre Florentino de Andrade e Silva para Bispo Titular de Heliossebaste.
Nessa altura, não poderia adivinhar que, 20 anos depois, iria ter o privilégio de integrar o pequeno núcleo que avançou para a criação do IPO do Porto, cujo lançamento da primeira-pedra foi abençoado por D. Florentino…

Março de 1955.

Cerimónia da sagração de D. Florentino, na Sé do Porto, a que assisti e que me marcou, não só pela cerimónia em si, mas também pela presença do meu tio e Padrinho, o Padre Manuel, irmão de D. Florentino, já muito debilitado por doença que a curto prazo lhe tiraria a vida. Era a sagração do então mais jovem Bispo em Portugal
E porquê, estas duas datas?… Até 1955, pouco convivia com o meu tio, o então Padre Florentino. Como sobrinho – dos poucos que não teve o privilégio da nascer no Concelho da Feira – os meus contactos com ele eram raros, nesse tempo, e só me lembro dos livros que o meu Pai, irmão de D. Florentino comprava por sua indicação para eu ler nas férias escolares; livros que versavam, sobretudo, a formação dos jovens e religião. Uma maçada para um jovem…
Os anos foram passando e, já licenciado, vou ouvindo referências, das melhores, a D. Florentino, e não só de muitos dos meus amigos, colegas e alunos que o conheciam então como professor no liceu D. Manuel II (hoje, Rodrigues de Freitas).
Do meu casamento (1961), lembro-me da sua homilia, longa – como era habitual – com aquelas pausas (que pareciam asfixiantes) acompanhadas daquele olhar penetrante sobre os presentes e em que assumia um aspecto místico, transcendental.
A partir daí surgiram visitas por variadas razões e então as conversas eram as mais diversas e actuais, em ambiente muito coloquial e familiar, o que contrariava a impressão de pessoa grave, longínqua, que dele se podia ter.
Lembro-me do baptizado dos meus filhos, um na Torre da Marca (1962) e outro no actual Paço Episcopal (1965). Após as cerimónias, já em ambiente mais familiar surgiam naturalmente as conversas sobre os mais variados temas desde arte, literatura, antiguidades e até mais mundanos, em que D. Florentino participava sempre, expondo a sua opinião estruturada e actual, numa demonstração natural da sua imensa cultura.
Em Setembro de 1972, em Faro estive presente na sua tomada de posse como Bispo do Algarve, o que, nos anos seguintes me levava a visitá-lo com a família; e recordo, sem faltar à verdade, como se sentia feliz por nos ver…
Lembro-me do casamento de minha filha (julgo que o último que D. Florentino realizou) e que a seu pedido, e dado a impossibilidade de o antecipar, começou rigorosamente à hora fixada (o que normalmente não acontece com as demoras habituais das noivas). Mal terminada a cerimónia religiosa, privou-nos do privilégio da sua presença na boda e no nosso convívio, para se dirigir à Sé do Porto. Estávamos no dia 15 de Abril de 1989, sábado; e nessa tarde realizava-se o funeral de D. António Ferreira Gomes, a que não quis faltar, esquecendo, como bom cristão, todas as injustiças que lhe haviam sido feitas aquando da ausência do Bispo residente, agora defunto.
E lembro-me finalmente de o visitar em Fontiscos, após a resignação,  já doente, mas tranquilo como só os puros de alma esperam o ultimo dia, o dele, o sete de Dezembro de 1989.
São estes alguns dos passos mais importantes da minha vida, em episódios cruzando-se com o meu tio Tino (Sr. D. Florentino) e que me levaram a escrever estas linhas, no Ano do Centenário do seu Nascimento.

Fernando Seabra de Andrade e Silva