Alminhas

Ao olharmos e consequentemente lermos a palavra “Alminhas”, vem-nos ao pensamento a pergunta natural: O que quer isto dizer? A que assunto é que esta palavra nos pode levar? Será este termo o diminutivo da palavra almas ou porventura o nome de uma flor? A palavra “Alminhas” poderia representar ambas as coisas. Diminutivo da palavra almas ou o nome de uma flor mas não é disso que iremos falar hoje.

Ora hoje, o assunto do significado da palavra “Alminhas” é muito diferente. Vamos trazer à memória pequeninas capelas, mesmo mesmo muito pequeninas. Vamos lembrar os nichos em cavidades pequenas, todas elas feitas usualmente em paredes ou muros, a par de caminhos e estradas, chamando a atenção dos caminheiros que por ali passam. Todas estas capelinhas têm, em geral, a representação de um Purgatório, isto é, uma vida purgante, onde as almas dos que já partiram deste mundo pedem a oração de quem passa.

Dizia-se antigamente que o lugar onde houvesse umas “Alminhas” era um lugar especial de respeito, um lugar onde alguém teria morrido de morte violenta: assassínio ou desastre. São fins trágicos e comoventes que nos fazem imaginar extremos de aflição e irreverência pelo pagamento à vida, dum tributo a que se não pode fugir. E assim, recordando e guardando estes pensamentos, vamos fazer as apresentações aos nossos leitores, de realidades a que queremos chegar.

A nossa freguesia de Santa Maria da Feira, onde nascemos e vivemos, também tem as suas “Alminhas”. Todas elas têm a sua história magoada porque a palavra morte traz sempre arrepio, tristeza e saudade.

As capelinhas de Santa Maria da Feira, chamadas de “Alminhas”, estão todas zeladas por pessoas crentes, que dessa maneira rezam e prestam homenagem aos que já partiram eternamente. E, sendo assim, vamos apresentá-las todas. E são elas: As “Alminhas” de Cavaleiros à esquerda de quem desce do lugar do Cavaco para S. João de Ver. As “Alminhas” da Lavandeira que estão à direita de quem vai para Sanfins. Temos as de Justas à direita de quem sobe para a estação do caminho-de-ferro, as do lugar do Seixo à esquerda de quem vai para Travanca e as “Alminhas” do lugar de Stº André, no muro à esquerda de quem vai para Espinho. Feitas as respetivas apresentações e se os leitores quiserem continuar a acompanhar-nos, vamos conversar um pouco, começando por dizer o seguinte.

De todas as “Alminhas” apresentadas, as que melhor conhecemos e mais vezes visitámos e continuamos a visitar são as “Alminhas” do Lugar de Justas e as “Alminhas” do lugar do Seixo. Porquê?

Em criança, há já bastantes anos, com meus pais e irmão, todas as vezes que precisávamos do comboio para qualquer deslocação, tínhamos que passar nas “Alminhas” do lugar de Justas. O itinerário para a estação do caminho-de-ferro, passando pelo lugar de Justas, fazia-se a pé e dava para pararmos, rezarmos e deixarmos uma esmolinha. Era mesmo assim que se dizia: uma esmolinha. E seguíamos o nosso caminho determinado.

Nesse tempo, muitas pessoas tinham por devoção tomar conta temporariamente do enfeite, Iluminação e limpeza destas capelinhas ou nichos. Combinava-se e umas tomavam conta durante um certo período de tempo, outras tomavam conta noutro período e assim as “Alminhas” estavam sempre acompanhadas e zeladas. Ora foi isso que aconteceu connosco. Tanto às “Alminhas” do lugar de Justas como às “Alminhas” do lugar do Seixo, nós acompanhávamos uma avó muito querida, tias e pessoas amigas, nessa devoção de zelar e rezar pela libertação de todas as almas. Esse rasto de sentimento pelos entes queridos que já partiram, ganhou raízes e deu fruto. E é por isso que ainda hoje passamos muitas vezes pelas “Alminhas” do lugar de Justas e pelas do lugar do Seixo, em oração.

Sentimo-nos muito felizes e agradecidos porque temos verificado que a tradição de respeito e oração é continuada e vivida pelos mais novos.

As “Alminhas” continuam a ser zeladas, alindadas com flores e vivificadas com luz. Bem-haja pessoas da nossa Terra, desta Santa Maria da Feira tão querida, tão bela e crente, que continuam a estimar e a conservar coisas tão simples e tão singelas mas com tanto valor, quando nos chegam bem dentro do coração. E esse coração de respeito e carinho por tudo o que é nosso, por tudo aquilo que representa o sentir de avós distantes que permitiram, pela sua acção, a transmissão de legados tão queridos, esse coração adoece, chora e fica triste pelos atentados de que constantemente as “Alminhas” são vítimas.

Os estados de desorientação precisada de bens básicos e não só, em que irmãos nossos são apanhados, traduzem-se em roubo, em estragar por prazer e na maneira de viver o momento sem temor das consequências, ao jeito de viver sempre no malsinado choque emotivo que sentem no malfazer. Ficamos tristes e lamentamos de que maneira… E ao rezarmos por todos aqueles que eternamente partiram, também pedimos a Deus pelos viventes infelizes e desorientados, penitentes de más condutas e fados desastrosos. Gostaríamos que o respeito se manifestasse, como valor que é, em ordem, compreensão e principalmente Amor.

Pensando a rezar acabamos com muita esperança numa vivência mais serena e mais feliz na prudência e na compreensão em amor, para que a alegria vivesse connosco e nos ajudasse a remar mais facilmente contra marés de injustiça, no barco que é a vida de todos nós.

 

Alcide Campos Brandão