O Muro e as lamentações

Donald Trump foi, durante longos meses de caminhada eleitoral, visto como um candidato republicano impulsivo e, aos olhos de maior parte da opinião pública, como xenófobo, não fosse a construção de um muro entre os Estados Unidos da América e o México uma das suas eternas promessas eleitorais.

Volvidos alguns meses e a sua nomeação, o desejo mantém-se, aliás, agudizou, tendo o atual presidente norte-americano ameaçado paralisar o governo caso o Congresso não ceda às suas exigências de financiamento do muro.

E nesta sua teimosia existem certos aspetos importantíssimos a ter em conta: a área que compreenderia a construção deste muro é de mais de 3000 km, entre os quais existem 20 pontos de travessia comercial entre os dois países e onde estão inseridas áreas de difícil acesso e de construção complicada, tais como rios ou montanhas. Para além disso, surge a persistente convicção de que o México será o responsável por abarcar com as consequências financeiras, isto é, trocando “por miúdos”: nós construímos, vocês pagam.

Por grande ironia, embora não sejam eventos de euforia mas sim de consternação, deu-se, em menos de mês, em ambos os países, tragédias que abalaram uma extensa parte do continente americano e que, com a proliferação de imagens e notícias, chegou ao coração de todos os portugueses.

Tudo começou com o furação Harvey, no estado do Texas, tendo provocado mortos, milhares de desalojados e níveis históricos de cheias e devastação por toda a parte, com ventos que chegaram a atingir os 133 km/h.

Seguiu-se outro furacão. Irma de seu nome. O mais forte de sempre no Atlântico, deixando mais de 6 milhões de pessoas sem eletricidade no estado da Florida e alguns deles apanhados pela tragédia quando para ela se preparavam.

Finalmente, o sismo no México que causou pelo menos 220 mortos, incluindo crianças. O fenómeno de 7,1 de magnitude atingiu o centro do México, resultando na destruição de edifícios, fugas de gás nas ruas e, principalmente, o pânico e a desordem.

O que importa reter destes sucessivos eventos é que, efetivamente, uma desgraça nunca vem só. Acima de tudo, é imperial perceber que todos sofremos. Entendendo que – claro está – a dor nunca será uniforme. Mas porquê tentarmos colocar-nos acima daqueles que consideramos inferiores? Para quê colocarmo-nos de costas voltadas para o nosso vizinho?

As tragédias que varreram o continente americano deveriam, principalmente, ser uma união entre os diferentes povos, no momento de sofrimento, de perda e de (re)construção de vidas despedaçadas pelo ímpeto da poderosa natureza.

Porque não deve o ser humano engolir o orgulho e apertar à mão àquele que precisa de conforto? Porque não deve a sociedade fomentar a proximidade ao outro?

Os EUA são, inclusive, uma nação com uma história alusiva a estes princípios que acabo de pregoar. Um país que se orgulha e que representa cinematograficamente muitas das lutas contra o racismo no séc. XX, aquando dos movimentos pelos direitos civis e da conquista de uma (aparente) igualdade de oportunidade. Um país que, há bem pouco tempo, assistiu a um cumprimento histórico entre duas nações que estavam há mais de meio século de costas voltadas – EUA e Cuba – através de Barack Obama, primeiro presidente norte-americano em exercício a pisar solo cubano em quase nove décadas.

Todos estes acontecimentos servirão para provar que o mundo precisa de bons exemplos. É necessário que desastres como estes nos sirvam de lição para compreender que tudo é efémero, a história é imortal, e a nossa vida singular, sem possibilidade de a viver duas vezes.

Deste modo, como nos dizia Martin Luther King, “temos de aprender a viver todos como irmãos ou morreremos todos como loucos”.

 

Rita Lage