Um cidadão preocupado

Mário Pereira

Noutros países afectados pelos incêndios, como a Espanha, num par de meses as pessoas já tinham novas casas e o dinheiro das indemnizações no bolso. Cá em Portugal as casas ainda estão no papel e dinheiro nem vê-lo. Mas o Presidente da República esteve no Jantar de Natal em Pedrógão Grande, tudo está bem, não há poeira no ar.

A senhora da Raríssimas continua à espera de um pedido de desculpa pois sentiu-se forçada a abandonar o seu tacho, logo na altura do Natal. Onde estava o espírito natalício das pessoas que tão abusivamente a desmascararam nesta época festiva?!

Por falar em Natal, já dizia o ditado “mudam-se os tempos….”, e os tempos têm mudado de verdade. Eu sou do tempo em que no Natal haviam as chamadas chicotadas psicológicas no futebol, estávamos sempre à espera de ver qual era o treinador  ou treinadores que não “comiam as batatas” no clube. Actualmente, as chicotadas psicológicas são na política. Esta tornou-se a época de fazer a contagem e ver quantos políticos perderam o tacho e já não “comem as batatas” e tudo o resto a que a ceia natalícia dá direito no seu abastado poleiro.

O ano de 2017 encerrou e como sempre esperamos que o ano que inicia seja melhor que o anterior. Mas antes de terminar, 2017 deixou-me pensativo. Não sei se é um fenómeno recente ou se já por cá andava e eu é que não me tinha apercebido, mas não pude evitar reparar numa série de ataques que o Natal e as pessoas que o celebram sofreram sobretudo nas redes sociais. Escravos do consumismo sustentado pelo Natal?! Marionetas que são levadas a gastar o seu escasso salário nesta época festiva em que tudo manipula para que se consuma, se gaste?! Mas é isto o Natal? Alguém aponta uma arma a outrem e obriga a comprar, a gastar?

Fiquei com a sensação que existe quem ache que o livre arbítrio morreu. Que as pessoas não são capazes de decidir o que é melhor e se deixam levar por encantadores de serpentes.

O Natal não é um símbolo do consumismo, o Natal também não é um símbolo religioso.

O Natal transcende a religião, a nação, a raça e até mesmo a profundidade do bolso.

O Natal para mim é reunir a família, para comer, beber e conviver. Sim podemos juntar a família em qualquer altura do ano, não precisa de ser o Natal, mas para mim o Natal sempre esteve ligado a estar com a família, não a gastar dinheiro e nem sequer a motivos religiosos. Para mim, esse é o dia em que Jesus nasceu, podem vir os que dizem que foi em Janeiro, que foi em Abril, não interessa. Mas eu não aguardo o Natal de cada ano por esse motivo. Se fosse, estaria presente na missa que é celebrada nesse dia e não o faço. No dia de Natal estou com a minha família, e sim nesse dia gosto de dar presentes, sobretudo às crianças. Gasto o que posso, não fico sem salário, nem sem subsídio, nem me endivido para comprar prendas, mas gosto de ver o sorriso no rosto dos meus filhos quando abrem os seus presentes.

Para mim, o Natal é isto, é vestir o fato vermelho e manter a fantasia de uma criança, é estar rodeado de quem amo, é comer e beber e sim são também os presentes. O Natal é para todos e todos o podem celebrar.

Para terminar, falando em presentes, todos nós portugueses fomos brindados com uma bela prenda envenenada. O salário mínimo aumenta para 580 Euros, mas aumentam também os transportes, o pão, a electricidade, o gás, os automóveis, as portagens, o leite, o tabaco, os refrigerantes, as telecomunicações, as rendas das casas, os combustíveis…

Existem pessoas que continuam a brincar aos políticos e nós, o povo, continuamos a ser o seu brinquedo favorito. Isto tem que parar!