Belmiro, o “forreta”

Belmiro de Azevedo faleceu. A importância estará nas lições que deixa. Na forma como enfrentava as adversidades. Também pela voz muito crítica sobre os interesses instalados na mesa do Poder. Vozes raras!

Um dia o Parlamento decidiu ouvi-lo. Marcou a reunião com os deputados para as sete horas da manhã. Era a hora que começava a trabalhar. Era também rigoroso na hora do descanso. Um dia juntei no Casino de Espinho meio milhar de personalidades para uma justa homenagem. Ele foi com a esposa, no seu carro, que só trocava a cada sete anos. Aí, ia-me lembrando que lhe havia dito que antes da meia-noite estaria terminado. Era assim. Cobrava a palavra dada. E honrava-a também.

Era duro. A negociar e a relacionar-se. Mas, humano, não deixava pendurado quem merecesse a sua estima. No início dos anos 90, era eu uma “criança” nos negócios e deparei-me com uma dívida a uma das suas empresas de 700 mil contos. Uma fortuna na altura. Ainda hoje. Não tinha como pagar. A falência era a única solução. Fez-me sofrer até ao último minuto e acabou por aceitar o valor que eu podia pagar. Só aí percebi que as pragas que lhe tinha rogado haviam sido injustas, pois deixou claro que nunca tencionou deixar-me cair.

Tinha uma atitude de ética nos negócios que encerram algumas histórias curiosas. Uma delas foi-me contada por uma assistente, revelando que várias vezes visitava os seus hipermercados, ainda fechados ao público, e ia verificar as datas de validade dos produtos. Quando algum não cumpria as regras, arremessava ao chão toda a prateleira.

Era assim o engenheiro. De quem o neto, quando criança, dizia que era “forreta”! Nasceu e viveu a trabalhar. Deixa saudade e muita riqueza ao país.

Eduardo Costa,

Jornalista, presidente da Associação Nacional da Imprensa Regional