DESCEU O PANO SOBRE A PEÇA DAS ELEIÇÕES

ESTÁ ESBOÇADO O CENÁRIO PARA UMA POLÉMICA

Com a vitória da coligação ‘Portugal à Frente’ desceu o pano sobre um processo eleitoral atípico, cujo(s) resultado(s) se presta agora a múltiplas interpretações, desde a explicação dos números às consequências políticas da escolha dos portugueses. Os portugueses expressaram as suas preferências; tem agora a palavra o presidente da República.

 

Texto: Orlando Macedo

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PàF VENCEU AS ELEIÇÕES MAS PERDEU A MAIORIA ABSOLUTA

Dos 9.682.369 eleitores inscritos, o número de votantes que se apresentou a escolher candidatos, não conseguiu deixar para trás as perspectivas dos que temiam o reforço do número abstencionista. Pior, confirmaram-se as mais negras perspectivas, com a abstenção a tingir um número record, que ultrapassou os 43%.

 

No entanto, pouco depois da17 horas, já uma nota dimanada do Ministério da Administração Interna dava conta de que, até às 16 horas, mais de 4 milhões de Eleitores (44,38%) já haviam votado, o que se traduzia num acréscimo significativo de afluência, face a igual situação registada em 2011 (apenas 41,98%, correspondendo a menos 230 mil votantes). Mas até ao encerramento das urnas, a média de afluentes às urnas foi caindo até números lamentáveis, a que o mau tempo que se fez sentir também não terá sido alheio.

Para já, estão definidos os quantitativos nacionais, traduzidos na ocupação de 226 lugares do Parlamento; mas o processo de escolha só ficará completo no próximo dia 14 de Outubro, altura em que será efectuada a contagem dos votos recolhidos nos círculos da Europa e de Fora-da-Europa, os quais elegem 4 deputados (2 cada).

 

COM BE A COMEMORAR, COLIGAÇÃO GANHA NO DISTRITO…

De uma maneira geral, os resultados registados nos Distrito de Aveiro e concelho da Feira, não fugiram da linha geral traçada a nível nacional.

Por parte da PàF, ressalta porém, dois factores: ganhou folgadamente em Ovar (terreno tradicionalmente afecto aos socialistas); e Amadeu Albergaria entra directamente em S. Bento.

Já o PS, perdeu em toda a linha, deixando António Cardoso longe do Parlamento.

No entanto, a a verdadeira surpresa é protagonizada pelo BE, que não só esconjurou o temor de o desconhecido Moisés Ferreira não conseguir agarrar o legado eleitoral deixado por Pedro Filipe Soares, como logrou alargar significativamente a sua base de apoio eleitoral, aponto de disputar até final a eleição de mais um deputado, que acabou por engrossar as fileiras da coligação..

Por sua vez, a CDU emparelha com o Partido Socialista nas lamentações, registando percurso de sentido contrário ao do BE: não conseguiu eleger o seu deputado e perdeu eleitores.

 

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…e no Concelho

A coligação chefiada por Passos Coelho ganhou em todas as freguesias do concelho. E só não fez o pleno porque – tal como na Gália de Astérix, uns corajosos resistem: trata-se da freguesia de S. Paio de Oleiros, cujo elitorado impediu que o mapa concelhio fosse totalmente colorido com as cores da PàF.

A essa tendência não fugiu o Bloco de Esquerda, que reforçou os seus números em todas as Freguesias. De alguma forma, a CDU acaba por se juntar ao PS, no que toca à desilusão de não terem conseguido atingir os seus objectivos: o PS, o de reforçar a votação e a CDU o de contribuir decisivamente para a eleição do tão desejado Deputado por Aveiro, desiderato que havia escapado por pouco, em 2011.

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O QUE SE SEGUE

cavaco-silvaApós a contagem de votos de ontem à noite, e não tendo daí resultado uma maioria absoluta, segue-se agora um período de consultas e negociações centradas em dois eixos: Presidência da República vs. forças políticas mais votadas; e contactos interpartidários (praticamente reservados ao espaço à esquerda da PàF.

 

Trata-se da gestão de uma situação complexa e por si só capaz de gerar tensões, pela multiplicidade de cenários que admite. Por isso é tão importante reter o “aviso” que, a meio da semana passada, o promitente candidato à Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa deixou aos actores políticos, ainda que mais a Cavaco Solva que às forças partidária: “os partidos políticos devem fornecer o máximo de dados sobre a respetiva posição ao Presidente da República”. O que traduzido em miúdos, significa que – aquando da ronda de consultas que se segue – Cavaco Silva os chamar [aos partidos] para discutir soluções governativas, será conveniente que eventuais coligações pós-eleitorais já estejam definidas (negociadas, entenda-se).

 

Por sua vez e quase em jeito de resposta, o presidente da República escolheu o ‘dia de reflexão’ para ir à televisão avisar que não está disponível para avalizar (viabilizar) “soluções de Governo que contornem os resultados das eleições” (…) ou sejam obtidas “à margem dos partidos e da Assembleia da República”. À partida, Cavaco Silva parece ter querido cobrir todas as possibilidades, remetendo parea as forças políticas o desenho dos cenários, com uma limitação: se não houver consenso, a Presidência da República também não avançará para uma solução de recurso, (governo de “salvação nacional” de inspiração presidencial) o que quer dizer que convidará Passos Coelho a continuar em funções, até que o próximo PR convoque novas eleições.

 

De uma semana a dez dias, no máximo, é o período de tempo que os analistas consideram necessário para Cavaco Silva anunciar a sua decisão.

 

Primeira pessoa

 

As reações dos “nossos” Candidatos

Texto: Orlando Macedo

 

(com Filipa Pereira e Nelson Costa)

 

Logo que foram conhecidos os resultados das projecções que davam à Coligação uma vitória a roçar a maioria-absoluta, quisemos registar as reações “a quente” dos nossos Candidatos; dos mesmos que – ao longo das últimas semanas – trouxeram preciosos indicadores das suas linhas de pensamento político, às páginas deste semanário.

 

Mas, registados os comentários ‘epidermicos’, voltámos à carga mais ao fim da noite, já de posse dos resultados finais…

 

Bloco de Esquerda

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“Coligação perdeu a maioria absoluta. É uma boa-notícia para o povo português…”

 

Enganar-se-ia redondamente quem esperasse encontrar um novel deputado eufórico. Eram 20h07 quando um calmo e cauteloso Moisés Ferreira preferiu resguardar-se, comentando que, “de acordo com as projeções, acreditamos que o BE irá seguramente aumentar os seus números e estará muito próximo dos resultados obtidos em 2009”.

 

Já depois da 23 horas e com praticamente tudo decidido, esperava-se apenas o apuramento de resultados residuais de que dependia, no entanto, a eleição do último deputado aveirense, disputado palmo a palmo por PàF e BE. Convidado a um último comentário, Moisés Ferreira recordou que “quando o Bloco partiu para estas eleições, no Distrito de Aveiro, tinha 3 grandes objectivos”, que enumerou como sendo “eleger pelo menos um deputado, para dar continuidade ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido na AR”; “ter mais votos para ter mais força na AR e quase duplicámos os resultados de há 4 anos”; “contribuir para a derrota da austeridade”, o que irá acontecer na próxima legislatura. “A coligação de direita perdeu votos e perdeu a maioria absoluta, o que é uma boa notícia para o povo português”, considerou. Na próxima legislatura, não deixaremos passar nenhuma medida que signifique mais austeridade e vamos lutar para repor direitos que foram tirados às pessoas” garantiu o “novo” deputado do BE.

 

CDU

 

“Povo quis um novo quadro político”

Já passava das 23 horas quando conseguimos chegar à fala com Antero Resende, no exacto momento em que o candidato da CDU “ouvia o grande derrotado da noite, António Costa, cabeça de lista do PS”. Relativamente à sua força partidária, considerou que se obteve “uma estabilização de resultados”, e comentou “o facto de aqueles que governam Portugal neste momento [coligação PSD-CDS], terem perdido em votos, em percentagem e em eleitores”; e que “amanhã irá ser o início de uma nova legislatura com um novo quadro político como o povo quis”. Para explicar os resultados modestos alcançados pela coligação de esquerda, disse que “apesar de a CDU ter feito uma campanha mais próxima dos cidadãos, não conseguiu chegar ao seu objectivo”. Contudo, Antero Resende, antevê para a nova legislatura um Governo “mais centrado nos problemas sociais, com uma acção mais aberta, muito diferente da anterior, que se fechava perante os demais partidos”.

 

PS

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“Resultado desastroso para o PS”

Sensivelmente à mesma hora, António Cardoso, não escondia o seu desapontamento face aos resultados das projecções de voto que iam sendo reveldos. “A confirmarem-se as projecções, o PS sai desta noite desta noite com um resultado desastroso. Era impensável que chegássemos a este resultado. Repito, é uma derrota desastrosa” – afirmou António Cardoso.

 

Com o avançar das horas e o surgimento dos resultados finais de muitos municípios, que confirmaram as primeiras projecções, ditando a derrota do PS, António Cardoso assumiu abertamente que, com base nos resultados conhecidos, não teria entrada directa na AR. “Não fui eleito directamente, não conseguimos esse objectivo, ficámos aquém” – confirmou.

 

Assumindo a derrota do PS, António Cardoso comentou que “os resultados não são agradáveis, os objectivos não foram alcançados, isto apesar de o PSD ter descido, mas nós (PS) subimos pouco”, sintetizou. Ainda assim, não deixou de sublinhar a possível maioria de esquerda no parlamento. “Prevê-se uma maioria de esquerda, com um projecto muito diferente. Que o PSD não conte com o PS, se pretender continuar o caminho da austeridade” – garantiu, ainda antes do discurso do líder do PS, António Costa, que veio sustentar a ideia de que o partido não alinhará num Bloco Central.

 

Instado a explicar as razões da derrota do PS, António Cardoso não hesitou: “A estratégia de campanha não funcionou”.

 

PàF

amadeu

Satisfeito pela entrada directa no Parlamento

Ao contrário do que seria de esperar, o nosso contacto foi apanhar Amadeu Albergaria na sede do PSD concelhio, onde compilava os resultados concelhios que lhe iam caindo no telemóvel. Dando-nos indicação de que só mais tarde rumaria a Aveiro, onde estava concentrado o estado-maior distrital da coligação, o candidato feirense confessou-se naturalmente “satisfeito” pelas indicações que lhe iam chegando. “Mas temos de esperar até ao final da noite…” acrescentou cauteloso, admitindo, no entanto que a sua entrada directa no rol dos eleitos, era um dado adquirido.

 

 

 

“Ganhámos em sítios onde costumávamos perder…”

 

 

 

O telefonema a António Topa apanhou-o ainda a caminho de Lisboa, aonde ia juntar-se aos seus colegas do Conselho Nacional do PSD. Apesar de também ele querer adoptar um tom cauteloso, comentou ser “inequívoca a vitória da Coligação”, e acabando por deixar escapar que “há algumas esperanças de chegar à maioria absoluta, dado que chegam indicações de que estamos a ganhar em sítios em que costumávamos perder, como é o caso de Ovar. Para além disso, há também a indicação de que o PS está a perder votos para outros partidos…”

 

Voltámos ao contacto no final da noite, para ouvir um quase afónico António Topa lamentar que a PàF não tivesse chegado à maioria absoluta, e achar que – apesar de a coligação ter perdido tal maioria – o “PS não deverá inviabilizar o governo da coligação, como fez Passos Coelho com Sócrates” antes da discussão do famigerado EC IV.