Barbearia ‘Chico’

Nova cara, a mesma qualidade

 

Com 55 anos de existência, o negócio de Francisco Barros tem novas instalações.

 

MOZELOS “O cabelo é a moldura do rosto, cuide bem dele!”, pode ler-se à entrada da barbearia ‘Chico’ em Mozelos. Criada em 1962 por Francisco Barros, conta já com 55 anos de existência. O gosto em ser barbeiro passou de geração em geração, sendo que hoje em dia o negócio é partilhado com o filho, também Francisco Barros, mais conhecido por “Chiquinho”, de 38 anos.

Com a ideia de dar seguimento ao negócio do pai, Francisco Barros tirou o curso de barbeiro este ano e, apesar de não estar a tempo inteiro na barbearia, quando sai do emprego vai ter com o pai e trabalham até às 21h00. Ser barbeiro está na moda, mas não é para todos; há que saber “conjugar a arte com a técnica, aplicando a técnica em cada corte de cabelo ou barba, cria-se arte no final”, diz Francisco Barros, filho.

Antigamente, ser barbeiro era considerado uma profissão sem qualidade; hoje cada vez mais os homens se preocupam com o seu aspeto. Aos olhos de “Chiquinho”, a “crescente procura dos homens em cortar o cabelo semanalmente e andarem mais cuidados” e todo o trabalho realizado pelo pai foi aquilo que fez com que o negócio durasse tantos anos. Os clientes “vão e vêm, mantemos alguns e agora, com a remodelação, notámos clientes novos e mais jovens”, conta Francisco Barros, pai.

De obrigação a paixão

Inicialmente, o filho era obrigado pelo pai a ajudá-lo na barbearia quando se portava mal na escola ou tirava más notas: “quando somos obrigados, parece que não gostamos do que estamos a fazer”, confessa “Chiquinho”; no entanto, “fui começando a fazer barbas e a ganhar gosto”. Devido a uma cirurgia do pai este ano, Francisco Barros passou a ajudar o tio na barbearia e decidiu tirar o curso de barbeiro. As obras surgiram e apesar de alguma reticência por parte de Francisco Barros, pai, em mudar aquilo que já existia há tantos anos, hoje, passados quatro meses da reinauguração, já está habituado e já voltou a saber de cor o sítio das coisas.

Ao longo dos anos, a barbearia teve várias caras: inicialmente era a única barbearia com sofás da zona naquela altura; com alcatifa na parede e cortiça no teto, era assim a “casa” de Francisco Barros. Uns anos mais tarde, foi retirada a alcatifa e foram colocados azulejos até meio da parede, em tons de azul. Hoje é num estilo moderno, em tons de preto, cinzento e vermelho que trabalham pai e filho.

Mas a coqueluche da barbearia “Chico” é, sem dúvida, as cadeiras remodeladas. Uma tem mais de 55 anos e é para a família uma relíquia com bastante significado: a primeira cadeira que Francisco Barros, pai, comprou, em 2.ª mão, hoje tem nova cara e como diz o próprio é “um Ferrari remodelado”. A segunda foi restaurada por uma das mudanças também feitas na barbearia.

Do antigo ao moderno: o que se mantém

O pincel, a tesoura, o pente e a navalha são utensílios imprescindíveis na barbearia. Mesmo com a evolução e modernização, existem técnicas que pai e filho nunca deixam de utilizar. As máquinas manuais de cortar cabelo funcionavam “a dar ao dedo e demorava-se muito mais tempo, hoje as máquinas são muito leves e fáceis de manusear”, explica Francisco Barros, pai. As navalhas eram afiadas num couro que era aplicado na parede e de cada vez que se fazia uma barba era necessário afiá-la.

“Apesar de ser uma pessoa que gosta das coisas antigas, a navalha de agora é muito melhor e mais higiénica”, ao que “Chiquinho” acrescenta ser hoje impossível trabalhar desse modo, pois de pessoa para pessoa a navalha tem de ser nova, nunca reutilizada. Francisco Barros, pai, diz ainda que “ao fim do dia, o tempo que se demorava a afiar a navalha dava para fazer um corte de cabelo”, podendo, hoje em dia, atender mais clientes e economizar tempo.

Francisco Barros, hoje com 70 anos, faz uma viagem ao passado e conta ao CF como criou este negócio: “Comecei na Vergada, depois da escola, a aprender numa barbearia e ao fim de sete semanas já fazia barbas, sozinho”. A primeira barba que fez foi fruto de uma aposta entre um cliente e um barbeiro: visto que o barbeiro ganhou a aposta, “Chico” fez a sua primeira barba, a muito custo, pois “mal chegava à cadeira ao princípio”.

No dia seguinte, “estava todo roto”, conta, pois “não estava habituado e doíam-lhe as costas”. Algum tempo depois, o patrão arranjou para Francisco Barros um caixote para que pudesse subir e chegar às cadeiras. Desde aí, começou a trabalhar sem parar. Seguiram-se os cortes de cabelo, que treinou principalmente em meninas, e diz ter sido a sua maior formação. Criou o seu primeiro negócio na rua em frente à de onde trabalha atualmente e em 1962 abriu, a então designada, “Barbearia Chico”.