Ela de Santa Maria da Feira, ele de Espinho. Ambos apaixonados um pelo outro, mas também pela música. O ‘bichinho’ floresceu na Academia de Música de Paços de Brandão e o seu crescimento não abrandou desde então. O casal Trindade, Alexandra e Augusto, partilha a sua história, intrinsecamente conectada com as pautas, com as partituras, com o violino e com a música em geral. Já dividiram palco, não só em Portugal, mas também em Espanha e no Brasil. São atletas de alta competição na música.
Haverá símbolo mais representativo no universo musical? Talvez, mas é a clave de sol aquele que rapidamente associamos a uma pauta, um símbolo já eternizado na comunidade. A palavra clave vem o latim e significa chave. E não podemos fugir à analogia. A música foi e continua a ser a ‘chave’ que abriu os corações do casal Trindade, Alexandra e Augusto.
Ambos formam um casal e não duvide que é mais aquilo que os une do que aquilo que os separa. Têm cargos na Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco, na Academia de Música de Paços de Brandão e na Orquestra Filarmónica Portuguesa, mas foi na Academia de Música de Espinho que tudo começou. Ela de Santa Maria da Feira e ele de Espinho.
Alexandra tem 39 e Augusto 45 anos e com, respetivamente, sete e cinco, encontraram uma das paixões que não mais conseguiram desprenderem-se: a música, na Academia de Música de Espinho. E o violino foi denominador comum. “Quando comecei a estudar violino na Academia de Música de Espinho, era tudo muito diferente. Presentemente, as crianças são expostas a vários instrumentos, podem experimentar e avalia-se a adaptação e a coordenação para o instrumento. Naquela altura questionaram-me na secretaria qual o instrumento que preferia”, entre violino e piano, “e optei pelo violino”. Aos 14, Alexandra transfere-se para a Academia de Música de Paços de Brandão, na qual concluiu o curso secundário de música. A veia musical nasceu com ela, um ensinamento enraizado pelo avô, Francisco de Assis. Já Augusto familiarizou-se com o violino no segundo ano de aprendizagem musical institucional. A mãe, apaixonada pela música, inscreveu-o aos cinco. Pouco depois seguiu o mesmo destino que Alexandra e transferiu-se para a Academia de Música de Paços de Brandão, tendo igualmente terminado os estudos ao nível do ensino secundário.
Inevitavelmente, encontrarem-se seria uma questão de tempo. A música, a paixão colateral, uniu-os, tendo o primeiro contacto sido registado em 1994… na Academia de Música brandoense. “O Augusto é cinco anos mais velho e nessa altura já frequentava o ensino superior, mas colaborava com a Orquestra Clássica da Academia de Música de Paços de Brandão. A partilha de gostos e interesses acaba sempre por aproximar as pessoas”, recorda Alexandra. “Foi através da música que nos conhecemos. Tocámos juntos em orquestras, partilhamos o gosto pela música e lecionamos nas mesmas instituições. Trabalhamos em equipa com os nossos alunos, pertencemos à mesma orquestra, partilhamos projetos e vivemos 24 horas por dia conectados pessoal e profissionalmente”, ressalva Augusto.
“Somos atletas de alta competição”
A música é uma dependência que os faz sentirem-se realizados, mas a caminhada para o degrau no qual cimentam a sua posição e catapultam o seu prestígio não foi feita como dar um passeio. A persistência e a paciência, e claro, o talento, foram determinantes em cada etapa. “A atividade profissional de um músico carece de um estudo do instrumento diário, estruturado, paciente e persistente. Somos atletas de alta competição, não no desporto, mas na vertente artística. A performance a solo, música de câmara ou orquestra, aumenta a responsabilidade e ansiedade, no entanto é necessário aprender a controlar esses aspetos e utilizá-los a nosso favor”, partilha Alexandra.
Os estudos na Rússia deram a Augusto um arcaboiço de referência mundial. “Existe uma grande responsabilidade em cada apresentação pública, porém, com a prática e a exposição com maior regularidade, ficamos mais confiantes e tranquilos de que iremos ser bem-sucedidos. Embora determinantes, os dois anos na Rússia foram duros”. Augusto realizou o mestrado em Artes no Conservatório de S. Petersburgo, mas ainda antes de lhe ser atribuída uma bolsa de estudo pela Secretaria de Estado da Cultura, já era dono de uma situação profissional estável. “Lecionava, tocava em orquestra, mas com a bolsa e após ter sido admitido naquele conservatório de referência, não podia desperdiçar aquela grande oportunidade. Contactei com pessoas extraordinárias e vivenciei momentos que jamais serão apagados da minha memória”, lembra.
Portugal, Brasil, Espanha e Rússia
Ambos os elementos do casal Trindade contam com um currículo de se lhe tirar o chapéu. Convidados a destacarem alguns dos principais momentos da respetiva carreira musical, Alexandra, “perfeccionista e exigente por natureza”, que procura a superação pessoal a cada espetáculo, recorda “com satisfação” os vários concertos que realizou com o seu marido em Portugal, Espanha e Brasil. “Não deixo de recordar com satisfação os recitais de conclusão da licenciatura, a defesa do mestrado ou do título de especialista em performance”.
Augusto partilha da opinião da sua cônjuge, mas salienta um concerto a solo em específico, para si “muito marcante”, e na Rússia. “A minha apresentação com a S. Petersburg State Orchestra, sob direção do conceituado maestro Vasily Petrenko. Frequentava o segundo ano do mestrado na Rússia e o meu professor, Vladimir Ovcharek, convidou-me para tocar a solo. Foi absolutamente memorável”, conta.
Alexandra e Augusto escolhem o violinista Ray Chen e a pianista Maria João Pires como duas das principais três referências musicais, sendo que ela opta pelo violinista Pavel Milyukov para fechar o top-3, enquanto a opção dele recai sobre o tenor Luciano Pavatotti. Relativamente ao local que mais nervoso miudinho lhes provocou, Alexandra relembra a primeira vez que tocou no lotado Coliseu do Porto, durante o seu primeiro ano de licenciatura na ESMAE – Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Porto, e Augusto não esquece o recital final do seu mestrado na Rússia, no auditório do Conservatório de S. Petersburgo.
As repercussões da Covid-19 e a Academia de Música de Paços de Brandão
É já um tema ao qual não podemos fugir. O setor cultural não escapa ao impacto negativo que o surto epidémico do novo coronavírus está a provocar no país, havendo um cancelamento abrupto de espetáculos. As agendas de Alexandra e Augusto não escapam à regra. “Tínhamos vários concertos agendados com a Orquestra Filarmónica Portuguesa, com solistas internacionais, com a banda Xutos e Pontapés e uma digressão a Paris”, diz Alexandra, que tinha ainda quatro propostas de realização de masterclasses de violino em diferentes academias e conservatórios do país. “Tudo ficou suspenso”. Augusto reforça a interrupção da programação da Orquestra Filarmónica Portuguesa e desvenda que na digressão a Paris iria apresentar-se “num concerto a solo no grande auditório da UNESCO”.
Como já referenciado neste artigo, Alexandra e Augusto desempenham cargos nas mesmas instituições, como por exemplo na Academia de Música de Paços de Brandão. Ela é presidente da Direção Pedagógica e ele professor. O vírus suspendeu a maioria da atividade, estando agora a instituição a reinventar-se. “Foram tantas as alterações… de repente, o garantido e o assumido alterou-se sem aviso prévio. A música e a prática instrumental estão intimamente associadas à transmissão de conhecimento do mestre para o aprendiz, obviamente na versão presencial. Na Academia, tivemos repentinamente de alterar o paradigma das aulas de instrumento e classes de conjunto”.
A vertente teórica foi mais fácil de manter. “Adotámos a plataforma Microsoft Teams, organizámos tudo e demos continuidade ao nosso trabalho em regime não presencial. Tudo passou a ser concretizado com recurso às novas tecnologias”, diz Alexandra, assegurando que há já “várias estratégias em curso” para o próximo ano letivo. “Gostaria de sublinhar que estaremos a falar de alguma instabilidade nos primeiros tempos, mas iremos criar todas as condições para podermos dar continuidade ao nosso trabalho, admitir novos alunos e, ainda em 2021, esta nova normalidade irá instalar-se. Em pouco tempo, com as devidas precauções, iremos desempenhar as nossas funções com maior confiança e tranquilidade. Não podemos parar ou interromper ciclos de estudos”.
A Academia de Música de Paços de Brandão está a abrir portas gradualmente, com base num plano de prevenção, contingência e higienização rigoroso. No que diz respeito à docência, Augusto garante sentir um “esforço imenso” por parte dos discentes. “As crianças e jovens adaptam-se muito bem, por vezes melhor do que nós adultos. Temos realizado as aulas online e, dentro das limitações, temos explorado aspetos positivos deste confinamento, aproveitando o prolongamento do término do ano letivo para ler mais reportório e para desenvolver outras questões, sobretudo técnicas, que serão uma mais-valia para o desempenho em regime presencial, que não tardará”, almeja.
A instituição de ensino musical brandoense reabriu no dia 18 de maio, mas apenas a 1 de junho é que começaram as aulas de pré-iniciação. A partir de hoje, dia 8, regressam as aulas presenciais de percussão – “apenas estas por o set de instrumentos de percussão é muito alargado e uma grande parte dos alunos teve de improvisar e recorrer a outras alternativas para realizar este ensino não presencial”, explica Alexandra. Para a presidente da Direção Pedagógica, depois de canceladas todas as masterclasses, workshops, intercâmbios, toda a programação dos 150 anos da Tuna Musical Brandoense e o Concurso Internacional Paços’Premium, “impõe-se um regresso cauteloso, atento, mas transmitindo a máxima confiança dentro de portas para professores, alunos e pessoal não docente”.
O FIMUV e a Orquestra Filarmónica Portuguesa
Augusto Trindade desempenha a função de diretor artístico do FIMUV – Festival Internacional de Música de Verão de Paços de Brandão, que em 2020 iria apresentar uma nova estratégia, denominada ‘Road to FIMUV’, suspensa devido à Covid-19. “O ‘Road to FIMUV’ era constituído por um conjunto de concertos que tiveram início em janeiro, no grande auditório do Europarque, com a Orquestra Filarmónica Portuguesa e o Coro de Câmara de Berlim, e iria culminar no próprio festival, com enfoque no mês de outubro”, contextualiza.
Uma maior colaboração com a Câmara da Feira, parcerias com outros festivais, concertos por orquestras de jovens internacionais e recitais. Tudo adiado. “O FIMUV de este ano representaria o maior investimento de sempre em 43 anos de existência ininterrupta de um dos mais antigos festivais de música de Portugal. Iremos realizar a edição em outubro de 2020. Seguindo as indicações da Direção-Geral da Saúde para concertos e espetáculos em locais fechados, iremos também realizar os concertos em livestream. Fizemos algumas alterações à programação, apostando sobretudo em intérpretes portugueses e iremos divulgar em breve a nova programação, que será igualmente apelativa e de um nível artístico inquestionável”.
E do FIMUV nasceu a Orquestra Filarmónica Portuguesa, em 2016. Augusto está na sua génese. “Procurava uma orquestra para acompanhar um grande solista internacional numa parceria do FIMUV com a Casa da Música de S. Petersburgo – uma condição imposta para a realização do concerto a solo –, instituição que representa os maiores talentos russos e laureados nos principais concursos internacionais. Porém, encontrei vários entraves. Em conjunto com o maestro Osvaldo Ferreira, concluí que poderia criar uma orquestra para o efeito, dando oportunidades a excelentes músicos portugueses que, na sua maioria, não têm um lugar em orquestras nacionais – com inúmeros músicos de Santa Maria da Feira”.
Assim decorreu a primeira apresentação da Orquestra Euro-Atlântica, pouco depois designada de Orquestra Filarmónica Portuguesa. “Foi constituída a associação, o maestro Osvaldo Ferreira assumiu a presidência da orquestra, assim como a direção artística, e eu desempenho o lugar de concertino, vice-presidente e também pertenço à direção artística da mesma”.
A Orquestra Filarmónica Portuguesa regressou à atividade no dia 30 de maio, estando agora a serem “ultimados e reagendados os concertos para junho, julho e agosto, na região do Porto, Guarda, Alcobaça, Viseu e Lisboa”. Augusto Trindade assume que durante o período de confinamento obrigatório foram exploradas novas possibilidades e estratégias para o futuro. Alexandra Trindade também tem responsabilidades na orquestra. Pertence aos órgãos sociais da mesma e ocupa o lugar de chefe de naipe dos segundos violinos. “A agenda ficou suspensa, porém fizemos a nossa primeira pequena apresentação pós-Covid no dia 30 de maio, no Palácio da Bolsa, no Porto, inserida na reabertura de alguns monumentos da cidade em parceria com a Associação Comercial do Porto. Os próximos concertos estão a ser agendados e iremos regressar ao palco em breve e com grande energia e fogosidade”, assegura.
