Nascido em Arrifana no seio de uma família de classe média-alta, detentora de uma fábrica de chapéus, fundada pelo avô, fintou uma doença pulmonar que poderia ter sido fatal. Cursou Direito em Coimbra, tornou-se advogado e nunca quis ser juiz. Privou com ilustres feirenses como Belchior Cardoso da Costa, Roberto Vaz de Oliveira ou Alcides Strecht Monteiro, com eles muito aprendeu, e rejeitou ser candidato à presidência da Câmara Municipal após a queda do antigo regime.
Por insistência dos dirigentes do clube, foi presidente do Feirense, levando-o à 1.ª Divisão na temporada 1976/77, gastando mais de 100 contos do próprio bolso. Tem vista privilegiada para o Estádio Marcolino Castro do seu escritório e faz questão de não falhar um único dia entre os milhares de papéis que o ‘decoram’. Tem um processo a decorrer, o que o faz ser, aos 90 anos, um dos mais antigos advogados em atividade, mas quer encerrá-lo para deixar de exercer. Está ligado aos bombeiros de Arrifana e Feira e foi presidente do Lions Clube da Feira
Altruísta, humilde e sério. Assim é qualificado, por quem o conhece há décadas e com ele priva, o ilustre feirense ‘doutor Luís Resende’. Tem 90 anos, as capacidades cognitivas praticamente imaculadas e as físicas de provocar… inveja.
Nasceu no seio de uma família de classe média-alta de Arrifana, que detinha uma fábrica de chapéus, e não se pode dizer que tenha passado pelas dificuldades que a maioria dos portugueses sofria na pele à época. “A fábrica era do meu avô que esteve emigrado no Brasil. Trouxe uns tostões, como se costuma dizer, e montou uma chafarrica, uma fabriqueta”, conta. Mais tarde, o seu pai e os seus tios – cinco irmãos – potenciaram a unidade industrial, elevando-a a outro patamar. “No tempo da guerra [década de 40], houve um ano em que foram mil contos de lucro, muito dinheiro para a época. Não posso dizer que vivia com luxo, mas vivia folgadamente”.
Fruto de um desenvolvimento cognitivo anómalo para a sua idade, ingressou na escola mais cedo que o usual, através de uma “habilidade” do pai. “Como eu era relativamente desenvolvimento, foi à escola matricular-me e disse que depois levaria a minha cédula, mas, entretanto, comecei logo [no ensino]”. Garante ter tido, a par dos seus dois irmãos, uma infância particularmente feliz.
Antevia-se uma incursão pelo ensino superior e assim aconteceu, mas o surgimento de uma complicação pulmonar obrigou a um interregno nos estudos, numa fase em que temeu pela própria vida, devido aos poucos avanços médicos. Valeram-lhe os conhecimentos e os recursos económicos da sua família. “Quando andava no terceiro ano de Direito tive um problema bastante grave, uma lesão pulmonar que me atrofiou durante dois anos. Tínhamos um médico de família da nossa inteira confiança, o doutor Portal e Silva, de S. João da Madeira, que me disse que eu não tinha nada, mas cheguei a estar três meses seguidos acamado e tive de interromper o curso”, recorda.
Chegou a “desconfiar” que podia ser fatal e, perante este cenário, o seu pai foi “buscar um especialista ao Porto” que veio propositadamente a Arrifana para diagnosticar e medicar Luís Resende. “Tinha muitos cuidados, praticamente não saía de casa, comia e dormia e consegui recuperar. Felizmente encarreirei e ainda aqui estou”, saúda.

Juiz? “Nem pensar nisso”
Cursou Direito em Coimbra nos anos 60. A paixão pelas leis e suas aplicações “nasceu naturalmente”, muito devido à maior propensão para as letras do que para as ciências. “Era natural, queria ser advogado. Era a profissão que queria abraçar”, prossegue, recordando que o seu pai ambicionava que chegasse a juiz, o que não o atraía… nem um pouco. “Formei-me e disse-me para ir para juiz, mas disse-lhe que não, nem pensar! Um juiz era visto como um super-homem… a minha profissão era ser advogado”.
E quanto ao mercado de trabalho, ingressou ainda antes de concluir os estudos, enquanto subdelegado do Ministério Público da então denominada Vila da Feira. “Estava no último ano de Direito e queria começar a praticar. Não fazia ideia de como ‘isto’ funcionava. Foram os funcionários que me ensinaram muito e quando saí já estava mais ou menos dentro de tudo”.
Seguidamente, inscreve-se na Ordem dos Advogados, tornando-se num dos poucos profissionais do setor nas redondezas e rapidamente passou a ser admirado e respeitado. “Um ano depois de estar licenciado, cancelei a qualidade de subdelegado e inscrevi-me como candidato à advocacia na Vila da Feira. Éramos cerca de oito e ainda sou capaz de me lembrar de todos. Comecei a notar o respeito que me começaram a dedicar a partir de certa altura, mas isso… tinha era de desempenhar cabalmente a minha função. O cliente que entrava no escritório era como um irmão. Felizmente, agora com 90 anos, às vezes encontro antigos clientes que se lembram de determinados assuntos. Há dois anos apareceu-me um senhor com 95 anos a dizer que lhe tratei de um inventário…”, revive.
Foi nesta altura que conheceu ilustres personalidades cuja vida e obra mantêm-se estritamente ligadas com a história do concelho de Santa Maria da Feira, tais como Belchior Cardoso da Costa, Roberto Vaz de Oliveira ou Alcides Strecht Monteiro. “Privei com todos. Alcides Strecht Monteiro já era advogado do meu avô, estagiei com ele e até viagens ao estrangeiro fizemos juntos. Por graça, diziam que era filho dele”.
Inclusive, este ‘pai’ que teve a nível profissional tentou que Luís Resende enveredasse pela política, objetivando que assumisse um dos cargos de maior relevo no Concelho. “Quando mudou o regime, quis à viva força que fosse presidente da Câmara Municipal, mas disse-lhe para pedir tudo menos isso. Não gostava de política, era contra o meu feitio. Ainda assim, fui membro da Comissão Administrativa, mas não gostava. Aparecia gente a querer meter cunhas e era contra isso… não suportava! A integridade era e é importante”, detalha.
Pouco interessado com as lides políticas, Luís Resende mostrava-se mais afeto às causas sociais, nomeadamente as de cariz humanitário, não esquecendo os cargos que desempenhou, em paralelo, na Ordem dos Advogados.
No biénio 1982-1983 assumiu a presidência do Lions Clube da Feira e, nessa década, esteve ligado aos bombeiros de Arrifana e da Feira, uma acoplagem que não mais conseguiu largar. “A ligação aos bombeiros de Arrifana é também resultado de o meu pai ter sido dos primeiros presidentes da associação. Um dia disse-me que tinha de ser sócio e ainda hoje sou. Assim como sou dos bombeiros da Feira. Cheguei a fazer parte da direção, no tempo do padre Manuel Reis, o chamado ‘Vigário’, embora num lugar ‘sossegado’. Tinha demasiados serviços, não tinha tempo”.

Paixão pelo futebol e Feirense na 1.ª Divisão
Apaixonado confesso por futebol, Luís Resende esteve praticamente durante toda a sua vida ligado aos relvados. Como ele, também os irmãos. Inclusive, um deles, Justino Resende, jogou sempre no clube da terra. “Ou jogava no Arrifanense ou não jogava em clube algum”, conta, muito também pelo facto de o seu pai ter sido um dos fundadores do emblema verde e branco – ainda que não gostasse “nada de futebol”.
“Ele, o meu avô, o meu tio Zé Garcia e um senhor chamado Ernesto Carvalho compraram um terreno para o Arrifanense. O meu pai e o meu avô deram mil cada, o meu tio 500 e o Ernesto Carvalho mais 500. Era muito dinheiro para os anos 20. Depois, mandaram mantear o campo”, recorda.
Apesar da ligação a Arrifana e ao Arrifanense, a vida de Luís Resende foi praticamente toda feita na sede do Município, criando raízes e… carinhos, um deles pelo Feirense. Antes de ter sido eleito presidente da direção do clube, foi presidente da Assembleia Geral durante “mais de uma dúzia de anos”, sucedendo a Domingos Sousa. “Era um problema sério arranjar presidente e prometi ser, mas um par de anos à frente. Quando chegou à altura… a promessa teve de ser cumprida”.
Foi em junho de 1975 e os feirenses só têm a agradecer. Apesar de na primeira época da sua presidência a equipa se ter safado da despromoção por pouco, a seguinte foi de gáudio. “A equipa não rendia no primeiro ano, mas ficámos na 2.ª Divisão. No segundo, reforçámo-la com dois ou três jogadores e fizemos sucesso. Fomos campeão da Zona Centro e subimos à 1.ª Divisão”, enaltece o ex-dirigente.
Luís Resende refere-se à época 1976/77, a última antes de terminar o mandato. Uma temporada atribulada e que o obrigou a investir capitais próprios. “Foi um sucesso. Era e sou apaixonado por futebol. Uma vez vi-me atrapalhado… na segunda época fui buscar um treinador que estava no Penafiel, o argentino Ruben García. Prometeu-me que estaríamos na 1.ª Divisão, fui a Penafiel ver um jogo e nem sabem as voltas que dei. Tive de pedir intervenção da GNR”, afiança, para ver-se livre da exaltação e fúria dos durienses, cientes de que o dirigente iria ‘roubar-lhes’ o técnico.
Ainda que tenha ajudado a colocar o Feirense no ex-líbris do futebol português, optou por não dar continuidade ao mandato. “Entendi que já tinha cumprido a minha missão a favor da massa associativa e do clube. Ainda há pouco, um dos membros da tal direção fez-me um apelo… disse-lhe que estava louco, agora com 90 anos ia fazer parte da direção? Acabou por compreender. Tive a minha época: na advocacia, no futebol, na Câmara Municipal e na Ordem dos Advogados. Sinto-me satisfeito que se lembrem de mim, ainda não morri”.
Do seu escritório tem vista privilegiada para o Estádio Marcolino Castro, continua a ver todos os jogos do seu Feirense na televisão e, atento às performances, classifica a temporada 2023/24 de “turbulenta”. O clube safou-se da despromoção no play-off, frente ao eterno rival Lusitânia de Lourosa, e Luís Resende viu o encontro decisivo ao vivo e a cores, a convite da direção. “Foram sempre difíceis aqueles dérbis…” recorda um presidente que durante o seu curto mandato deu “mais de 100 contos ao clube, muito dinheiro naquela altura; ser presidente era ser sacrificado”, prossegue.

Processo em tribunal e sempre “tudo arrumadinho”
Pessoa com uma organização ímpar, Luís Resende admite que durante toda a sua vida procurou ter sempre tudo “muito arrumadinho”, destinando um sótão para efeitos arquivísticos, mas os ficheiros são tantos, de décadas e décadas de trabalho, que já teve de destruir os primeiros anos. “Arquivava mais de um processo por dia. Às vezes saía do escritório de madrugada e chegava a receber clientes à meia-noite”.
Antes da pandemia, passava todo o seu dia no escritório, mas atualmente preza por resguardar a sua saúde e a dos que o rodeiam. Porém, não abdica de ir, todos os dias, na parte matutina do dia, até à Rua de São Nicolau. “Faz-me falta. Nem que não faça nada, é o ambiente… é onde passei os últimos 30 e tal anos”.
Aos 90 anos, tem um processo a decorrer em Tribunal, o que faz de Luís Resende um dos mais velhos advogados em atividade. “É um inventário instaurado há três anos… até tenho vergonha. Ainda não passou do princípio, mas a culpa não é minha. Os tribunais e os juízes… deixaram de ter brio”, critica.
Refere que atualmente “o tratamento dado na Justiça não é como antigamente”. “A própria maneira como os juízes e os advogados se tratavam… havia sempre 15 minutos de chalaça, sem que isso provocasse qualquer influência. Eram conversas. Depois, cada ‘macaco no seu galho’, totalmente imparciais. Convivi de perto com imensos juízes, sempre com isenção, estima e consideração”.
Quer retirar-se assim que o processo acabar. Confidencia que o segredo para a sua longevidade assenta em “muita regra, boa alimentação, sem noitadas e sem excessos”.