Cinco anos depois, o impacto e as lições da Covid-19
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Cinco anos depois, o impacto e as lições da Covid-19

É momento de retrospetiva, de avaliar o que correu bem, o que poderia ter sido feito de outra forma e as lições que ficaram para o futuro. Falámos com o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), Bernardo Gomes, que embora destaque a capacidade de adaptação da sociedade, alerta para a necessidade de haver um esforço intersectorial, para que erros cometidos não voltem a acontecer

Começámos por ver imagens vindas da China, que nos pareciam, inicialmente, entre finais de dezembro e inícios de janeiro de 2020, bem distantes. Só que, pouco tempo depois, Itália. O vírus começava a aproximar-se de Portugal e as reportagens transmitidas pelas televisões refletiam situações dramáticas.

Zonas interditas, testes em massa, aumento drástico de infeções, sistema de saúde a colapsar, camiões militares a transportarem os caixões das vítimas, encerramento de escolas, cancelamento de eventos públicos e quarentena. O cenário vivido em cidades italianas não tardou a repercutir-se (em grande parte) em território nacional.  A 2 de março, a Direção-Geral da Saúde anunciou o primeiro caso de Covid-19 no país, no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. E 16 dias depois, a 18 de março, contávamos já com 642 casos. Foi decretado estado de emergência e as fronteiras com Espanha fecharam. 

Dia após dia, os casos multiplicavam-se a um ritmo veloz, com o centro e o norte do país a serem as regiões mais afetadas da primeira vaga em Portugal. Aliás, no concelho limítrofe de Ovar houve inclusive uma cerca sanitária. Por esta altura, já todos tínhamos operado uma reviravolta na nossa vida quotidiana, desde a adoção de máscara e desinfetante constante, o distanciamento social, o trabalho remoto e até novos hábitos de consumo (como compras online).

O pico desta primeira vaga aconteceu entre 23 e 25 de março, altura em que a taxa de transmissibilidade (Rt) foi mais elevada. No entanto, o maior número de casos diários deu-se a 10 de abril, dia em que foram diagnosticados 1.516 casos.

No mês de maio, os casos começaram a diminuir, assim como nos meses seguintes de verão, contudo, no final do calor, novo aumento. A tão temida segunda vaga levou Portugal à situação de calamidade, de novo, e a 9 de novembro à emergência. Foi mais mortífera do que a primeira e o número de mortes diárias da pandemia atingiu: 98.

A ‘luz ao fundo do túnel’, o sinal de que a pandemia poderia ser controlada e as vidas retomadas, após meses de confinamento, restrições e sofrimento, chegou com o anúncio do desenvolvimento de vacinas. Ainda em 2020, chegou a tão ansiada primeira aprovação da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Pfizer e BioNTech. A Agência Europeia do Medicamento aprovou a vacina a 21 de dezembro e a vacinação começou nos países da União Europeia, incluindo Portugal, a 27 do mesmo mês.

A análise de Bernardo Gomes

Para avaliar o que correu bem, o que poderia ter sido feito de outra forma e as lições que ficaram para o futuro, falámos com o médico de Saúde Púbica Bernardo Gomes. “A nível nacional, o que julgo que correu bem foi o desenvolvimento rápido da vacina. Por vezes, não valorizamos devidamente o que foi conseguido. A forma como nos conseguimos adaptar, dado que havia uma deficiência de estrutura informática, e de capacidade de resposta e organização para podermos ser o mais eficientes possível, também é motivo de destaque”, começa por dizer o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), dando, de seguida, o “bom exemplo” do município de Santa Maria da Feira no que concerne à eficácia de organização e de resposta.

Apesar do referido, considera que algumas áreas de gestão poderiam ter sido mais eficazes, particularmente em relação ao processo de tomada de decisões. “O processo de decisão relativamente à tomada de medidas e sobretudo a questão da comunicação podiam ter corrido bastante melhor”, opina. Enquanto não havia tratamento conhecido, considera que a decisão imediata de implementar o confinamento foi acertada, dado o cenário em países como Espanha e Itália, contudo, sobre janeiro de 2021 não refere o mesmo. “O momento menos feliz foi em finais de dezembro de 2020 e janeiro de 2021, altura em que houve dificuldade em reconhecer o cenário em que estávamos e sobretudo de tomar medidas mais assertivas para evitar o que passámos de novo”.

O especialista adianta que o SARS-CoV-2, atualmente, avançou “para um padrão sazonal” e dada a imunidade da população o impacto é menor. “Temos vacinação disponível, por isso faz com que seja visto de forma menos ameaçadora, ainda que exista sempre alguma cautela. Até porque há variações e este coronavírus mostrou ser muito adaptável. Mas é um cenário completamente diferente de há cinco anos”.

A pandemia alterou significativamente a abordagem global à saúde pública. Segundo Bernardo Gomes, a experiência de 2020 mostrou a necessidade de operarem-se mudanças no modelo de atuação. “Ficou provado que teríamos de ter outro tipo de modelo de atuação: maior separação entre a componente técnica e política”, diz, acreditando também que é necessário melhorar a comunicação e o quadro jurídico normativo para permitir respostas mais eficazes sem recorrer a estados de emergência. Por isso, a mudança de paradigma ainda está por concretizar: “Há trabalho a fazer para não repetirmos alguns erros. Destacaria a forma como se comunica a incerteza e como se consegue mobilizar a população sem se recorrer necessariamente a medidas de obrigatoriedade. Tem de haver um esforço intersectorial para responder a desafios futuros”.

A ameaça da gripe das aves

A história já mostrou mais do que uma vez como os vírus conseguem surpreender. Atualmente, a gripe das aves, sobretudo a causada pelo subtipo H5N1, tem um potencial pandémico que os especialistas e autoridades de saúde dizem que não pode ser ignorado. Ainda que baixo, o risco existe. “A maior ameaça em termos estatísticos é a gripe das aves. Está a multiplicar-se de uma forma muito marcada não só em aves, mas também em bovinos. Isto faz com que não só haja um impacto na cadeia alimentar, mas a cada multiplicação aumente o risco de mutações que fazem com que eventualmente se possa ganhar a temível transmissão de pessoa para pessoa”, alerta o médico.

Por último, o especialista destaca que, embora a sociedade tenha demonstrado uma grande capacidade de adaptação, é necessário investir em recursos adequados e treino recorrente para garantir respostas eficientes a situações de emergência. Alerta, ainda, para a importância de a sociedade valorizar aspetos como a qualidade do ar e a ventilação, fatores com impactos diretos na saúde da população. “É sabido que escolas mais ventiladas têm crianças menos doentes e que produzem mais, ou seja, têm maior capacidade cognitiva”, sublinha.

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Márcia Soares
JORNALISTA | Licenciada em Ciências da Comunicação. A ouvir e partilhar as emoções vividas pelas gentes da nossa terra desde 2019.
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