Do ensino ao ténis de mesa e aos Jogos Olímpicos
Desporto Reportagem

Do ensino ao ténis de mesa e aos Jogos Olímpicos

Multifacetada é a palavra que melhor descreve Celeste Araújo. Natural de Lourosa, foi professora durante vários anos, mas a influência familiar levou-a a conhecer o ténis de mesa. Chegou a presidente da associação que tutela a modalidade em Aveiro, foi diretora-desportiva do Ponta do Pargo, da Madeira, e é treinadora no Lusitânia de Lourosa. Todavia, foi na arbitragem que encontrou a vocação, sendo a primeira árbitra a representar Portugal a nível internacional. A evolução e constante formação levou-a, à segunda tentativa, a ser selecionada para estar nos Jogos Olímpicos de 2024. Está ligada ao ramo imobiliário e depois de experiências a todos os níveis na profissão, optou por abrir a sua própria empresa

É de Lourosa e vai estar nos Jogos Olímpicos de 2024, em Paris, tornando-se na primeira árbitra portuguesa a ajuizar partidas de ténis de mesa num dos mais reputados torneios do mundo, depois de ao longo da sua vida ter ajudado a quebrar barreiras na modalidade. Multifacetada, foi professora, diretora-desportiva, treinadora, presidente e ainda consultora imobiliária, ramo no qual enveredou ‘a solo’ no início do ano.

Celeste Araújo conheceu a modalidade “por influência do ex-marido”. Enquanto eram casados, conta que foi o agora presidente da Junta de Freguesia de Lourosa, Armando Teixeira, que convidou o seu cônjuge para “organizar e participar num torneio de ténis de mesa”. “Participou, ganhou e foi convidado para abrir uma secção, em 2004, ligada ao Lusitânia de Lourosa”, recorda.

A ligação ao ténis de mesa, modalidade que os seus filhos também praticaram, e o tempo despendido a acompanhar a família, levou-a a querer algo mais, além de presenciar torneio após torneio, fim de semana atrás fim de semana. “Queria estar presente e acompanhar os meus filhos, mas era uma ‘seca’ estar sentada nas bancadas e decidi tirar o curso de árbitro regional. Tirei, comecei a arbitrar e gostei, porque conseguia acompanhá-los; em 2012, tirei o curso de árbitro internacional”.

Para ser-se árbitro, Celeste Araújo assegura ser preciso “gostar muito da modalidade” porque “não é um trabalho fácil”, pois obriga os juízes a estarem “fechados num pavilhão, sábados e domingos, a arbitrarem constantemente”. “Começamos às oito da manhã e acabamos às oito da noite, pausas para ir à casa de banho são uma ‘sorte’ e temos de ser rigorosos sem sermos prepotentes. Tem de haver sensibilidade e flexibilidade, sempre com rigor”, elenca.

Começa-se por conseguir o diploma regional e após pelo menos um ano de atividade, pode-se avançar para o curso de nível nacional, seguindo-se o de âmbito internacional, que um juiz apenas pode obter depois de dois anos a arbitrar nacionalmente. “Os cursos internacionais são sempre de dois em dois anos. Para fazê-lo, é preciso saber inglês, o curso é em inglês, uma língua que se tornou num requisito. Quando queremos candidatar-nos temos de contactar a Federação Portuguesa de Ténis de Mesa”, prossegue, assegurando que o órgão que tutela a modalidade tem de dar o seu aval.

Atualmente, os exames são feitos pela via online e a lourosense conta que “há muitos árbitros que estão a desistir porque começam a deixar de ser convocados para grandes provas”, devido a não dominarem a língua inglesa.

Algo que não é, de todo, um entrave para Celeste Araújo, licenciada em inglês e alemão, que inclusive foi professora durante vários anos. Antes de esmiuçarmos mais uma faceta da árbitra natural de Lourosa, importa abordar as primeiras experiências internacionais de uma juíza que continua a querer obter mais e mais qualificações, que a permitam integrar-se entre a ‘nata’ da arbitragem.

Viajar pelo mundo como bónus

A primeira prova internacional que arbitrou foi o Campeonato do Mundo de juniores, em França, no ano de 2015, torneio no qual tentou adquirir o seu blue badge, a segunda mais alta categoria da hierarquia na arbitragem do ténis de mesa, mas não conseguiu. “Não estava preparada. Ainda pedi ajuda a alguns árbitros, mas infelizmente puseram-se de lado: ‘desenrasca-te’ foi a resposta que deram”, aponta.

Foi aprimorando os seus desempenhos e chegou aos grandes palcos com naturalidade. Em 2022, ajuizou um dos jogos mais difíceis, na Liga dos Campeões. “Fui a árbitra mais bem cotada, daí ter feito a final. Foi um stress constante, mas gostei muito. Foram dias muito intensos”.

Já 2023 foi um ano que continuou a catapultar Celeste Araújo, que marcou presença em provas emblemáticas como Jogos Europeus (Cracóvia, Polónia), WTT (Doha, Catar), Jogos Mundiais Universitários (Chengdu, China) e Campeonato do Mundo (Düsseldorf, Alemanha).

Ter optado por enveredar pelo ténis de mesa possibilita-a viajar por todo o globo, algo que nunca esperaria que acontecesse. “Não tinha esse intuito e nunca pensei em viajar tanto”, admite, desvendando que no início teve de investir financeiramente a título individual, tendo em perspetiva atingir um estatuto que é totalmente ‘comparticipado’ pelas federações. “Quando comecei a arbitrar a nível internacional tive de investir. A ITTF [Federação Internacional de Ténis de Mesa] não paga as viagens; dá hotel e alimentação e tudo o resto é por nossa conta. Investi para fazer as avaliações necessárias para manter o blue badge e agora posso dizer que não pago viagem alguma. Tenho tudo pago”.

Aproveita sempre para aprender um pouco da cultura e visitar algumas atrações turísticas dos locais que acolhem os torneios de dimensão internacional. “Tenho tido excelentes experiências e quero ter mais”, almeja.

“Às escuras” e a solo

A aventura internacional ganhou contornos de realidade devido à aspiração pessoal de Celeste Araújo, ambiciosa “por defeito”, mas que estava “completamente às escuras” quando optou por alcançar o respetivo nível. “Queria mais e disseram-me que havia outro patamar. Já duas ou três portuguesas tinham tentado, mas falharam. Em Portugal temos cada vez menos mulheres a nível internacional. Que arbitre fora do país, só eu”, detalha.

A diminuição do número de árbitros do sexo feminino tem preocupado a ITTF, que tem feito campanhas de recrutamento, tentando atrair as mulheres para o juízo da modalidade. “Acaba por ser vantajoso. Há cada vez menos mulheres e estão a tentar ‘puxá-las’ para a arbitragem. Por exemplo, no caso de haver seis homens e quatro mulheres para oito lugares, quase garantidamente que as quatro serão selecionadas; é-lhes dada prioridade porque há poucas dentro da qualidade que querem. Ninguém é chamado só por ser mulher”, ressalva.

Inédita presença nos Jogos Olímpicos

Qualquer desportista ambiciona disputar as mais reputadas competições das respetivas modalidades e com os árbitros não é diferente. Representar o país traduz-se como o pináculo da carreira e fazê-lo nos Jogos Olímpicos ganha ainda um sabor especial.

Não como atleta, mas como árbitra, Celeste Araújo conseguiu o ‘carimbo’ para marcar presença na edição de 2024, que terá lugar em Paris, França, de 26 de julho a 11 de agosto. Ser blue badge há pelo menos três anos é um dos requisitos do comité organizador e a lourosense, que tinha tentado obter a distinção no passado, tendo reprovado, conseguiu-a em 2018, depois de ter passado o exame e ter tido três avaliações práticas positivas acima dos 85%. “Após obter o certificado, todos os anos tenho de ter uma avaliação, ou ter três num espaço de três anos; posso fazer uma em cada ano ou três no mesmo ano. Por exemplo, em 2024 um dos blue badge que tínhamos em Portugal perdeu o estatuto porque nunca mais teve avaliações”.

Agora, nem uma mão-cheia de blue badge existemno país. “Éramos quatro, três homens e eu, a única mulher. Agora somos três”, contabiliza, mostrando-se disponível para ajudar quem queira atingir o nível.

Após três avaliações conformes, e de ter formalizado o seu desejo através da obrigatória candidatura associada, viu-se selecionada para os Jogos Olímpicos de Paris. “As regras ditam que tem de ir um determinado número de árbitros de cada continente. Tem de haver equidade entre homens e mulheres, mas todos têm de ser blue badge ou gold badge”, esmiúça, salientando que é através da obtenção do certificado ‘dourado’ que a ITTF quer “profissionalizar árbitros no ténis de mesa, o que ainda não acontece” – a organização tem aumentado os valores dos prémios e das comparticipações, a par de rigorosas e exigentes avaliações.

Para a lourosense, “era um sonho ir aos Jogos Olímpicos”. Candidatou-se “com esperança”, mas com noção de que “os árbitros estão cada vez mais qualificados”. “Existem cerca de 20 gold badge, com a agravante de a maioria ser da Europa, mas tinha esperança em ver o meu nome selecionado”.

Foi em mês de aniversário que soube da nomeação, uma autêntica prenda de anos. “Fiquei muito contente por alcançar o objetivo e já recebi o bilhete de avião”, conta, entusiasmada. “É a prova máxima que podemos arbitrar e provavelmente nunca mais poderei fazê-lo. É pouco provável um árbitro fazê-lo duas vezes”.

Quer desfrutar da experiência, mas sabe que será avaliada de forma minuciosa. “Vou ser avaliada ao segundo. O stress é muito, mas vou-me preparar ao máximo. Os Jogos Olímpicos agregam os melhores [jogadores] do mundo, já os arbitrei e a responsabilidade é muita… jogam muito rápido”.

Vai ser a única árbitra portuguesa, entre os universos masculino e feminino, numa competição que contará com a participação da seleção nacional masculina, depois de a feminina ter falhado a qualificação.

Críticas internas

Celeste Araújo está inserida entre os melhores árbitros de ténis de mesa e garante existirem desigualdades na realidade portuguesa, quando comparada com o panorama internacional. “Há coisas que aconteceram que não convém tornar público. Não conheço as realidades de todos os países, só algumas, mas considero que a nossa é retrógrada. Na FPTM, não houve atualização dos estatutos dos árbitros. Em Portugal, ser-se árbitro internacional e blue badge é igual a ser-se árbitro nacional, não tem qualquer tipo de regalia. Ao arbitrar ganho tanto como os outros, enquanto a nível internacional isso não acontece, há tabelas. Não considero que a federação olhe para os árbitros como uma classe que merece atenção e respeito”, critica.

Algo que poderá levá-la, inclusive, a optar por inscrever-se através de outro país. “É uma opção se as coisas não melhorarem. Acho que estou a ser prejudicada, tendo em conta o que faço pela modalidade em Portugal. Não querem saber disso. Estive em provas internacionais e nunca colocaram uma publicação a dizer que tinham uma árbitra a representar Portugal. Absolutamente nada”, prossegue.

Ténis de mesa, ensino, dirigismo e imobiliário

A vida profissional de Celeste Araújo nem sempre esteve ligada ao ténis de mesa. Na modalidade, antes de ser árbitra, acompanhou de perto a criação da secção no Lusitânia de Lourosa, sendo atualmente treinadora da equipa feminina que disputa a 2.ª Divisão. “Tenho o grau três, o máximo que existe em Portugal. Quis conhecer a modalidade em todas as vertentes. Na parte diretiva, de arbitragem e a nível de treinadora, que é a que implica uma maior disponibilidade durante a semana”.

Na carreira como técnica, orientou ainda a equipa feminina do Ponta do Pargo, da Madeira, tendo desempenhado também funções de diretora-desportiva “durante três anos, tornando o clube numa instituição de utilidade pública”.

Antes, foi durante vários anos professora, colocando em prática o diploma de licenciatura em inglês e alemão. “Adoro ensinar. O ensino está nas minhas veias. Não saí por não gostar de ensinar, o problema é que os professores não têm de gostar de ensinar, têm de dar matéria, cumprir normas e acatar ordens; e com as birras das crianças e dos pais, que muitas vezes são ainda piores”, aponta.

Uma paixão que continua a fazer parte da sua vida, mas enquanto formadora no ramo imobiliário. “Tornei-me consultora imobiliária desde que regressei da Madeira, em 2019, por influência de uma colega. Passado um ano, mudei para uma imobiliária internacional e depois fui convidada para abrir uma agência em Espinho. Fui diretora de loja e broker de equipa. Após algum tempo fiz uma avaliação e abracei outro projeto. Em 2023, fui trabalhar para uma construtora que queria abrir uma imobiliária, mas no final do ano cheguei à conclusão que estava a trabalhar muito para os outros e que estava na altura de concretizar o sonho de abrir a minha própria imobiliária”, conclui.

Adquiriu bagagem para lançar-se ‘a solo’ no mundo imobiliário e atualmente divide-se entre o ténis de mesa, enquanto árbitra internacional blue badge e treinadora, e a empresa que fundou no início de 2024.

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Marcelo Brito
JORNALISTA | Curioso assíduo, leitor obsessivo, escritor feroz e editor cuidadoso, um amante do desporto em geral e do futebol em particular.
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