Há uma crescente procura pelas escolas caninas, com as pessoas a quererem educar os seus fiéis companheiros através de sessões de obediência básica. A Lucky One Dog School surgiu através de uma parceria com a Aanifeira e os responsáveis salientam a importância de, além dos animais de quatro patas, educarem-se… os donos
A educação é um direito constitucionalmente consagrado e um dos pilares de uma sociedade, e alastra-se cada vez mais pelo mundo animal, com alguns donos a procurarem instruírem os seus canídeos em escolas próprias. Para aumentar o leque de respostas a uma procura que vai aumentando, três jovens decidiram criar uma escola canina, em Mosteirô, num terreno contíguo à Aanifeira.
Uma ideia idealizada pelo único feirense dos três, Rúben Pereira, e desenvolvida em conjunto com dois amigos que fez na Força Aérea Portuguesa: Rúben Alves e Francisco Costa. “Enquanto militares, trabalhámos como treinadores caninos. Entretanto, comecei a fazer voluntariado na Aanifeira, que tinha uns terrenos sem uso e sugeri a criação de uma escola de cães. Parte do valor dos treinos reverte para a associação”, introduz.
Em funcionamento há pouco mais de um ano, mas não na sua plenitude, a Lucky One Dog School tem como missão tornar os cães da AANIFEIRA “mais adotáveis”. “Queriam trabalhar com os cães para facilitar o processo de adoção. Ainda não o estamos a fazer a 100%, mas é o objetivo: fazer um treino prévio, de obediência básica, para as pessoas os adotarem mais facilmente”, prossegue.
Com esta parceria, quem adotar na AANIFEIRA no futuro estará a levar consigo um patudo que passou por um processo em que aprendeu a sentar-se, deitar-se e ‘andar à trela’.
Rúben Alves aborda a pertinência em educar o companheiro de quatro patas. “É importante ter treino, para estar em casa ou para dar um passeio na rua, para não haver incidentes. Temos por base treinos de obediência básica para combater comportamentos como puxar a trela, porque há pessoas que deixam de os passear porque ou puxam muito a trela ou vão na rua a ladrar para outros cães…”.
A par do ensinamento dado aos canídeos, destaca a importância de educar os respetivos donos. “Todos os treinos são feitos na presença do dono, salvas exceções. Fazemos um exercício com o cão e a seguir faz o dono, para corrigirmos problemas e comportamentos, como a ansiedade e a postura do animal”, explica Rúben Pereira, garantindo que 90% dos treinos são direcionados aos donos. “Ao ensinar o dono como deve trabalhar com o cão, criam-se rotinas e regras”.
Segundo o feirense, a recetividade vai variando consoante a faixa etária. “Os mais jovens adoram e se estiverem a fazer um frete, os cães sentem. Com malta acima dos 50 ou 60 anos, não conseguimos tanto… alguns ainda têm a mentalidade de que é com ‘corda e pau’ que se educam os cães”.
Não existe um treino que seja transversal a todos os cães e a Lucky One Dog School adapta os seus a cada caso, após uma primeira avaliação individual. “Um cão pode ser medroso ou reativo e vemos quantos treinos vamos precisar; depois, aula a aula, fazemos treinos personalizados, apresentando-os aos problemas que causam reação. Não há cães iguais e temos de adaptar”.
O tempo necessário para ‘formar’ um canídeo varia e há algo que tem influência direta. “Se fizerem o trabalho de casa, a maior parte dos problemas fica resolvida entre cinco a dez aulas. Tivemos um caso de agressividade resolvido em dez, mas os donos trabalharam em casa. Há donos que fazem as aulas, chegam a casa e não querem saber… e quando o cão vem à aula seguinte, temos de lembrá-lo da anterior”, detalham.
Segundo os treinadores, “felizmente há cada vez mais pessoas à procura de educarem os cães”, procurando “darem-lhes as melhores condições”.
Escola, creche e hotel
A Lucky One Dog School tem serviço de creche e hotel e os donos podem seguir todos os passos, em tempo real, através de imagens de videovigilância de cada box.
Quanto à creche, Rúben Pereira conta que, cada vez mais, “as pessoas não querem deixar os cães em casa o dia todo sozinhos”. Então, “procuram esse serviço, para socialização e habituação com outros animais”, até porque “vão para casa muito relaxados”.
Há ainda um espaço a ser preparado para casos de maior agressividade, que potencie a socialização entre cães, mas com uma rede divisória, evitando potenciais contratempos. Ainda que Rúben Alves assegure que são apenas aceites cães sociáveis, podem “aceitar um que não seja”, não sem antes “passar por uma fase de treinos de socialização”, para que esteja salvaguardada “a segurança de todos”.
Relativamente ao serviço de hotel, “ajuda a combater a taxa de abandono”, isto porque “as pessoas sentem segurança ao terem um serviço premium, com câmaras, num espaço fechado”. Os três vão-se revezando e pernoitam nas instalações, para agirem prontamente em caso de emergência, algo que reconforta os donos, aliado ao facto de existir uma clínica veterinária – a da AANIFEIRA – literalmente ao lado.
Sensibilizar nas escolas
Nem todos os casos são de sucesso e alguns não por culpa dos patudos. “Era um casal de cães, que os donos humanizavam demasiado, e há cada vez mais esse problema. Eram como filhos e mimavam-nos demasiado”, introduz Rúben Pereira. “Os cães aprenderam rapidamente as obediências básicas e as imobilizações, mas quando introduzimos os donos, marido e mulher, começaram a entrar em choque e a discutir, até que a senhora desmotivou”, acrescenta Rúben Alves.
Partilham dicas nas redes sociais, alertando para os perigos à espreita, e à boleia desta iniciativa pretendem promover ações de sensibilização nas escolas, “levando animais e ensinando as crianças a abordarem-nos”.
A longo prazo, é ambição treinar cães para “fazerem buscas e deteções de pessoas, ou seja, busca e salvamento, para “fazermos o bem para a sociedade”.

