Em prol da inclusão e da igualdade
Futsal Reportagem

Em prol da inclusão e da igualdade

Utentes de 16 instituições de todo o distrito, entre as quais três de Santa Maria da Feira, participaram na 4.ª edição do Encontro de Futsal Adaptado, organizado pela Associação de Futebol de Aveiro, um dia antes do Dia Internacional da Síndrome da Down, que tem como missão promover a inclusão e a igualdade de pessoas com deficiências motoras ou cognitivas através do desporto. CERCI Feira, CERCI Lamas e Casa Ozanam anseiam por mais iniciativas de carácter lúdico e inclusivo, onde os resultados não são priorizados e as incapacidades, limitações e desigualdades ficam à porta

Homem ou mulher, jovem ou adulto, alto ou baixo, gordo ou magro… não interessa. Nem o género, nem a altura, nem o peso, nem a idade. As limitações ficam à porta e a desigualdade é posta de lado durante algumas horas. É a intenção do Encontro de Futsal Adaptado, que em 2024 teve a sua 4.ª edição, um evento de cariz social e desportivo, de carácter lúdico e inclusivo, e que agrega dezenas de utentes de várias instituições do distrito de Aveiro.

Através da prática desportiva, mas com momentos de interação, convívio e partilha, como música ou dança, que agrega utentes e monitores, a Associação de Futebol de Aveiro (AFA), em conjunto com a Câmara Municipal de S. João da Madeira, a CERCI sanjoanense e a Federação Portuguesa de Futebol, promoveram o 4.º Encontro de Futsal Adaptado, no Pavilhão das Travessas, situado naquele município.

Entre as 16 instituições e os cerca de 185 utentes presentes, estiveram a Casa Ozanam, a CERCI Feira e a CERCI Lamas, de forma a potenciarem a todos os portadores de algum tipo de deficiência ou incapacidade, motora ou cognitiva, (mais) um dia inolvidável.

Na defesa da igualdade de oportunidades e em prol da melhoria da saúde e da qualidade de vida daqueles que muitas vezes são marginalizados e colocados de parte pela sociedade, o evento juntou instituições de todos os cantos do distrito. Além das de Santa Maria da Feira e S. João da Madeira, estiveram representados os municípios de Águeda, Arouca, Aveiro, Castelo de Paiva, Murtosa, Oliveira de Azeméis, Oliveira do Bairro, Ovar, Sever do Vouga e Vagos.

Sem limitações ou condicionalismos, mas obedecendo às regras do jogo, todos tiveram a oportunidade de estarem dentro das quatro linhas e sentirem-se, durante algumas horas, autênticas estrelas do futsal. Ainda que o resultado não seja o foco, a felicidade de marcar um golo ou de isolar um colega, ou de impedir que a própria equipa sofresse, era notória a cada jogo, a cada lance, independentemente das equipas dentro da quadra.

Com os preconceitos postos de lado, homens jogaram contra mulheres, portadores de deficiências físicas contra portadores de limitações cognitivas, ao ataque e à defesa, auxiliando-se mutuamente, sempre de sorriso no rosto e com muito fair-play à mistura.

Promove-se a inclusão e a integração, o companheirismo alia-se ao desportivismo e todos, ainda que inseridos em realidades e contextos de vida distintos, são olhados e tratados de igual forma, com foco no desenvolvimento psicossocial de cada um.

“São trabalhados diversos aspetos”

Paulo Silva acompanhou a equipa que representou a CERCI Lamas, que detém uma parceria com o Clube Desportivo e Cultural de S. Paio de Oleiros, tendo-se feito representar, inclusive, com uma indumentária alusiva ao emblema oleirense, e salienta o espírito de convívio proporcionado por eventos desta natureza, em prol dos utentes.

“É a quarta vez que é realizado e participámos nos três anteriores. O aspeto mais forte é a inclusão, a socialização e a autonomia que ganham. São trabalhados diversos aspetos, não apenas o jogar à bola, e isso dá-lhes a possibilidade de trabalharem a sua autonomia, inclusive em contexto de balneário”, destaca.

Além da promoção da prática desportiva, o monitor considera igualmente benéfico o desenvolvimento de outras competências, com enfoque na interação social. “Tem corrido muito bem e sentem-se felizes. Há sempre um momento mais descontraído, de música e dança, e temos tirado proveito. Esperemos continuar”, refere.

“Ficam em êxtase”

Sérgio Bastos, monitor da Casa Ozanam, de S. João de Ver, foca a importância da atividade física para os participantes. “É uma forma diferente de promover o convívio. Não estão habituados a estarem todos juntos neste contexto e é importante fazerem desporto e conviverem. Ficam em êxtase porque é um dia diferente, que passam com amigos com quem não estão há muito tempo e ficam muito contentes”.

Assegura que depois de participarem no Encontro de Futsal Adaptado, aos utentes da Casa Ozanam despertam vontades de quererem ir a mais torneios e a mais atividades “porque gostam muito de sair”.

“A felicidade deles enche-nos de alegria”

Responsável por acompanhar a CERCI Feira, Vítor Cunha reproduz a felicidade que os utentes da instituição emanam. “Estes miúdos dificilmente jogam à bola e quando vêm para estas atividades é uma alegria imensa. Um marcou um golo e foi como se tivesse ganho um campeonato ou um troféu. A felicidade deles enche-nos de alegria”.

O formador na área da carpintaria fala do anseio prévio dos utentes e aponta à realização de mais eventos deste cariz. “Antes, há sempre alguma ansiedade e nervosismo e têm os colegas a ‘espicaçá-los’. Após, é uma alegria imensa, ao partilharem o convívio. Andam dias, até um mês, sempre a perguntarem quando é o próximo. Não depende de mim, mas há ansiedade de participarem em mais”.

Para si, “o mais importante é a felicidade com que estes jovens participam, as memórias que constroem e as partilhas que fazem quando chegam à instituição”. “Ao ser um evento inclusivo, tornam-se iguais a todos, esquecendo barreiras ou limitações, assumindo posturas de verdadeiros vencedores”.

Sorriso no rosto e apelos

Muitas vezes marginalizados e postos de parte pela sociedade, veem-se em pé de igualdade através de iniciativas como esta. Três utentes da CERCI Lamas relatam a sua participação. “Fui a primeira vez e gostei de jogar com as outras equipas. Queria que repetissem a atividade, era bom para todos. Gostei de dançar e conviver, foi um momento importante”, diz-nos António Batista.

“Gostei de participar e jogar contra as outras equipas. Foi bom o convívio que tivemos, a dançar e a almoçar. Devia repetir-se mais vezes”, almeja Aurora Matos, complementada por Susana Tavares, que deseja mais encontros e até de outras modalidades, como “boccia ou andebol”.

A diversão, o convívio e o trabalho em equipa

Sobre um dia marcado pela animação, boa disposição e companheirismo, a CERCI Feira formou uma equipa composta por “jovens que manifestam particular interesse neste tipo de atividade e que, sem sombra de dúvida, vibram de forma extrema com os golos marcados e com toda a envolvência desportiva”.

A equipa regressou a casa “cheia de entusiasmo e com muito para contar”. Para Pedro António “foi ótimo ter participado”, não escondendo a felicidade de celebrar um golo, sem esquecer Vítor Cunha, que considera “o melhor treinador do mundo”. Já Diogo Santos destaca como aspeto positivo o “excelente almoço” e o facto de ter “gostado de dançar na pausa entre os jogos”.

Gabriel enaltece o gosto pelo convívio com atletas de outras instituições e Daniel, no regresso a Santa Maria da Feira, considerou como “essencial” o trabalho de equipa e que “o fundamental foi todos se terem divertido”.

Por sua vez, Miguel Oliveira refere ter sido “muito bom jogar contra as equipas mais fortes” e, no final, “ter recebido os prémios”. Daniel Vargens adorou o convívio e o almoço, “em particular as sandes de leitão”, elogiando a “muito boa organização do evento”.

O grande valor das pequenas coisas

Em representação da Casa Ozanam, ao serviço da sociedade desde 2026, os utentes que marcaram presença em S. João da Madeira mostram toda a sua satisfação, mas anseiam a realização de uma próxima atividade. “Foi com muito carinho que percebemos como se focaram em aspetos muito simples, que tantas vezes no dia-a-dia desvalorizamos. Felizmente, ajudam-nos a lembrar o grande valor das pequenas coisas”, conta-nos Filipa Araújo, terapeuta ocupacional da instituição.

“Joguei à bola e marquei um golo. Gostei muito da comida”, referiu o utente Pedro, e Manuel acrescentou que “correu bem”. “Joguei, comi, recebi uma medalha e uma camisola”. Ainda que cansado à chegada a S. João de Ver, Nuno já só queria o próximo encontro. “Foi fixe e devia acontecer mais vezes. Divertimo-nos à grande”.

Com um enorme sorriso num rosto habitualmente tímido, Solange adorou a experiência. “Adorei ver a dançar e a cantar. E a jogar à bola”. Já Filipe enalteceu a criação de laços de amizade com utentes de outras instituições, o que comprova a importância destes intercâmbios institucionais. “Divertimo-nos muito, jogámos à bola, conhecemos pessoas novas e encontrámos velhos amigos… foi muito bom”.

Rui destacou a simpatia de todos, não esquece o “bom almoço” e a bola de futsal que a Casa Ozanam recebeu como lembrança de participação. Não conseguindo esconder o entusiasmo, Susana aproveitou para agradecer pelo convite feito para participar. “Foi uma surpresa muito boa, uma aventura”. Por fim, Rogério deixou elogios. “Gostei de tudo. E temos a certeza de que, para todos, isto é mesmo verdade”.

Um evento que passou ao lado a muitos, assim como muitas das pessoas com necessidades e cuidados especiais passam, durante toda a sua vida, sendo até marginalizados pela sociedade, tendo em instituições como CERCI – Lamas ou Feira – e Casa Ozanam um amparo e um grupo de profissionais que potenciam uma qualidade e um equilíbrio na vida que dificilmente teriam.

Mais eventos no horizonte

O presidente da AFA assegura que, ainda em 2024, haverá mais eventos deste cariz. “A AFA tem um objetivo, diria mesmo a obrigação, de ter futebol, futsal ou outra qualquer modalidade desportiva para todos. Queremos estar junto de tudo e todos e estes atletas merecem que esta partilha seja possível. É o ano do centenário, estamos a congregar esforços e este é mais um. Não será a única atividade deste tipo este ano, já que vamos promover um encontro de futebol, previsto para julho. No sul do distrito, em Águeda, em princípio”, desvenda. José Neves Coelho assegura que o Encontro de Futsal Adaptado “é para continuar”. “Vamos tentar aumentar a participação. Pela alegria deles, queremos estar ainda mais presentes”.

Já o coordenador do futsal da AFA diz ser um dos eventos que mais prazer dá organizar à estrutura do organismo. “Cumprimos com o princípio da UEFA de igualdade de oportunidades. É um evento que queremos perpetuar no tempo e este ano teremos o primeiro Encontro de Futebol Adaptado, ao ar livre”, sustenta André Sapata.

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Marcelo Brito
JORNALISTA | Curioso assíduo, leitor obsessivo, escritor feroz e editor cuidadoso, um amante do desporto em geral e do futebol em particular.
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