Num contexto de crescente preocupação com a saúde mental das crianças e jovens e os efeitos das redes sociais, a série britânica ‘Adolescência’, produzida pela Netflix, tem gerado discussões significativas e simultaneamente tem sido um alerta não só para pais, como para a sociedade em geral. Ao Correio da Feira, a psicóloga Mariana Magalhães aborda as redes sociais como estímulo de transformações para adolescentes, tanto externas como internas, como também a exposição precoce a conteúdos com potencial impacto na estabilidade emocional, como a pornografia
Aborda a masculinidade tóxica, os perigos das redes sociais e as consequências devastadoras da pressão online e da violência juvenil, através do caso de Jamie Miller, um jovem de 13 anos acusado do homicídio de uma adolescente que frequentava a sua escola.
‘O que é que faria se o seu filho adolescente fosse acusado de homicídio?’ é a pergunta-chave da série britânica de quatro episódios, baseada em factos verídicos, que foi inclusive mencionada no Parlamento britânico, onde o primeiro-ministro, Keir Starmer, a destacou como uma ferramenta importante para compreender os desafios enfrentados pelos jovens atualmente. Keir Starmer afirmou que a violência associada a subculturas online é um problema real que precisa de ser enfrentado com urgência.
Segundo a psicóloga Mariana Magalhães, a utilização excessiva das redes sociais “pode afetar profundamente o desenvolvimento dos adolescentes a vários níveis, nomeadamente emocional e psicológico, mas também social e cognitivo”. “Pode resultar numa constante atitude de comparação, não só relativamente à autoimagem, mas também ao estilo de vida. Tal pode criar uma perceção de que existem vidas ‘perfeitas’ e levar a uma pressão para atender a padrões muitas vezes irreais e/ou inalcançáveis, que podem gerar nos adolescentes uma perceção de insuficiência e conduzir a sintomas de ansiedade e depressão ou baixa autoestima”, explica, abordando, também, a facilidade dos jovens adotarem comportamentos agressivos através das redes sociais: o cyberbullying. “Quando praticados por esta via, os comportamentos agressivos não conduzem a consequências imediatas para quem os pratica, tal aumenta o sentimento de impunidade e o anonimato, o que muitas vezes leva a que mais facilmente se ultrapassem os limites. Mas para o adolescente alvo destes comportamentos agressivos, o impacto pode ser imediato e significativo no seu bem-estar e saúde mental, podendo levar ao desenvolvimento de emoções como medo, vergonha, sintomas depressivos, ansiosos e isolamento”, alerta.
Entre os riscos e os benefícios, a profissional defende que importa encontrar um ponto de equilíbrio e definir limites de utilização que respondam às reais necessidades de desenvolvimento desta faixa etária. Não obstante, aponta os principais sintomas a que os pais devem estar atentos: “A exposição excessiva às redes sociais pode levar ao desenvolvimento de sintomas que podem servir como sinais de alerta, imitação de comportamentos, insatisfação e insegurança, necessidade extrema de validação e aprovação através das redes sociais, alterações na perceção de si próprio – autoestima, potenciais comportamentos impulsivos, preferência por interações virtuais e consequente isolamento social, desenvolvimento de sintomas de ansiedade, alterações ao nível do humor e/ou sintomas depressivos, alterações ao nível do padrão alimentar, alterações no sono, alterações no rendimento escolar e dependência”.
Com a constante exposição a informações e estímulos digitais, o papel dos pais ganha ainda mais relevância. A psicóloga sublinha a preponderância dos progenitores, para garantirem o bem-estar e a segurança dos filhos. “É urgente que os pais ou cuidadores tentem estabelecer uma comunicação aberta com o adolescente e acima de tudo isenta de julgamentos. Precisam de ser bons ouvintes e de criarem um ambiente confortável, que o propicie a compartilhar o que está a pensar e a sentir. Em seguida, é fundamental conseguirem controlar as suas reações, evitar críticas ou repreensões durante as conversas. E o mais importante, que façam com que o adolescente se sinta validado, compreendido e apoiado no que partilhou estar a sentir”, defende, não esquecendo a estratégia de acompanhamento da utilização das redes sociais – “através do estabelecimento de limites saudáveis de tempo para utilização diária de ‘ecrãs’ e redes sociais” – e a importância do incentivo a atividades que envolvam interações fora do mundo digital.
Risco de exposição precoce a conteúdos pornográficos
Com o fácil acesso à informação veiculada e disponível na internet, os jovens chegam também rapidamente à pornografia e em idade precoce. A exposição precoce a conteúdos pornográficos – que têm impacto na respetiva construção de conceitos – pode interferir na formação de expetativas e na adoção de determinados comportamentos nas suas relações do dia a dia. “Pode interferir nas perceções, na formação de crenças enviesadas e na criação de expectativas disfuncionais, com potencial impacto na normalização de determinados comportamentos e atitudes, bem como no estabelecimento de relações saudáveis”, considera a psicóloga, não se ficando por aqui. “Pode também conduzir à construção de crenças sobre o papel do homem e o papel da mulher, ou seja, ‘como cada um se deve comportar’, fazendo os adolescentes acreditar que aquilo que é apresentado reflete comportamentos que devem ser seguidos nas suas próprias relações. Pode conduzir a comportamentos agressivos nas práticas sexuais ou à objetificação das mulheres ou ainda a comportamentos desprovidos de contexto emocional e uma visão superficial da intimidade”.
Por este motivo, embora assuma que o tema da sexualidade possa ser desafiante para os pais, sublinha que “é fundamental que seja uma prioridade”. “É importante que essas informações sejam recebidas por intermédio de fontes confiáveis, como pais ou cuidadores, educadores ou profissionais de saúde e que façam destaque à importância do respeito e do consentimento para a vivência de uma intimidade saudável, para que possam ajudar os jovens a distinguirem aquilo que é real daquilo que é fantasia. Isso promoverá a desconstrução de mitos e o desenvolvimento de uma conceção equilibrada e saudável sobre a sexualidade”, acrescenta.
Assim sendo, considerando o aumento dos desafios que os adolescentes enfrentam hoje, o papel familiar e escolar escala. “A adolescência é já por si uma fase de intensas e exigentes transformações para o adolescente, tanto externas como internas. As redes sociais surgem hoje com um contexto que potencia não só a pressão nessas transformações, mas facilita também a exposição precoce a conteúdos com potencial impacto na estabilidade emocional. Por isso, tanto a família como a escola podem e devem ser contextos promotores de segurança e apoio na orientação dos jovens, não só pelo importante papel de veicular informação fidedigna, mas também pelo papel que devem assumir em promover o estabelecimento de relações saudáveis”, diz, fazendo menção ao papel dos profissionais de saúde mental, como os psicólogos, nomeadamente em casos cuja complexidade exige acompanhamento profissional especializado. “Os psicólogos podem oferecer o espaço seguro para que os jovens possam expressar os seus sentimentos e adquirirem ferramentas que permitam lidar com os desafios e enfrentá-los através de estratégias saudáveis e adaptáveis”, opina, pese embora reforce a necessidade de haver um cruzamento de papéis à medida que os desafios da adolescência se tornam mais complexos, nomeadamente da família, da escola e dos profissionais da saúde mental.
PSP deixa alerta aos pais
Tal como ainda é demonstrado na série, os emojis usados em conversas e comentários online podem esconder significados ocultos. Numa publicação no Instagram, a Polícia de Segurança Pública (PSP) não deixou o tema na ordem do dia passar em branco e lançou um alerta direcionado aos pais.
“Os pais devem estar atentos”, refere, em alusão a símbolos aparentemente inocentes, mas que podem estar na verdade relacionados com drogas ou sexo. “Sabia que um emoji pode ter vários significados?” é a questão que a PSP lança como ponto de partida.
Na publicação, a PSP ‘traduz’ alguns dos emojis que estarão a ser usados entre jovens e alerta para os riscos que podem estar associados aos mesmos: “Especialmente quando estes símbolos são utilizados no âmbito de conversas de cariz sexual ou relacionadas com o consumo/tráfico de drogas”.
Símbolos como uma beringela, um cachorro quente, uma banana ou uma maçaroca são os emojis usados para falar sobre o órgão sexual masculino. Já o feminino é ‘representado’ por uma flor, um taco, uma peça de sushi ou um gato.
A PSP reconhece que as conversas de teor sexual entre jovens fazem “parte do crescimento”, mas apela a um “especial cuidado quando se utiliza este tipo de linguagem (emojis) no diálogo com desconhecidos em chats, aplicações de encontros, plataformas de jogos online, entre outros”.
Alerta que os mais jovens, não sabendo quem se encontra do outro lado do ecrã, podem estar a falar com alguém mais velho, aumentando assim o risco de serem vítimas de grooming – um processo de manipulação que começa com uma abordagem não sexual para ganhar a confiança da vítima, de maneira a incentivá-la a partilhar conteúdos íntimos ou a marcar um encontro presencial. “Pais e jovens devem estar atentos a este duplo significado dos emojis, pois podem estar perante uma situação de aliciamento sexual”, reforça a força de segurança.
Também plantas, cavalos, corações de cores diferentes, diamantes, rebuçados ou bonecos de neve serão alguns dos símbolos usados para descrever, neste caso, o tráfico ou consumo de drogas.
Na publicação de alerta, a PSP termina a apelar aos pais para ficarem atentos e a protegerem os seus filhos dos perigos que se encontram não só online, como também na vida real.
