Durante mais de um século, o Correio da Feira acompanhou a vida política, cultural e social de Santa Maria da Feira. Em novembro de 2024, anunciou a suspensão e o desaparecimento do título deixou o Concelho sem um espaço de escrutínio e de acompanhamento próximo. Em entrevista, Jorge de Andrade, proprietário da marca, reflete sobre a suspensão do título, o estado da comunicação social e o papel dos cidadãos na defesa da informação
profissional e independente
Correio da Feira – Em novembro de 2024, após 127 anos de atividade, o Correio da Feira anunciou a sua suspensão. Sentiu o impacto dessa decisão na comunidade feirense? Perdeu-se um elo entre os cidadãos e a comunidade, um espaço de escrutínio e de acompanhamento próximo.
Jorge de Andrade – Senti, os feirenses que se preo cupavam com a informação profissional e isenta, que o Correio da Feira fazia, foram-me relatando.
Trilhámos todos os caminhos possíveis para nos mantermos, sempre pelo caminho correto, o da isenção. Agora, sinto que há uma falha na informação em Santa Maria da Feira – falta um jornal que se preocupe em informar os munícipes politicamente, desportivamente, culturalmente, a todos os níveis. A imprensa está morta em Santa Maria da Feira, entregue às redes sociais.
A suspensão do título refletiu uma tendência mais ampla da fragilidade do jornalismo em Portugal?
Era uma realidade que estava a acontecer já quando comprámos o Correio da Feira [em 2011]. O moribundo tem um prazo de falecimento bastante prolongado. Se não cuidarmos e não nos preocuparmos em procurar a informação correta, estamos a alimentar a desinformação e a colocar em risco as bases do sistema. Por exemplo, a democracia que temos não é perfeita, mas é o melhor que temos. Se olharmos para o que está a acontecer no mundo, temos a prova dos riscos que cor remos: há países que foram referências nos sistemas democráticos ocidentais, onde se observa uma regressão. Temos de ver o que está errado e corrigirmos, porque dizer que está tudo mal, não preserva o bom que temos.
Como vê a relação entre o declínio da imprensa regional e a qualidade da democracia a nível municipal? Sem jornais regionais, a democracia local fica objetivamente mais frágil?
Os jornais regionais têm a função de aproximar as pessoas dos problemas locais, mas não só. A proximidade é um pilar que está abalado há muito tempo e é usado pelos políticos no interesse dos seus objetivos e não no das populações. A informação é importante para o escrutínio dos atos políticos e dos atores políticos. No entanto, essa importância quem lhe dá somos nós, cidadãos, e não é a imprensa que releva essa importância. Temos de alimentar e cuidar o nosso interesse pela democracia, algo que o cidadão hoje não está a fazer. A imprensa está num momento moribundo.
Para retirar a imprensa do “estado moribundo”, defende um modelo de financiamento público ou isso colocaria em risco a independência editorial?
São as pessoas, não os regimes ou os políticos que devem regular a comunicação social. Se o fizerem, já estão a interferir na liberdade exigida à imprensa. As populações têm de observar o que está mal na imprensa e mudarem. Se deixarmos aos governantes a mudança, o que se tem notado é que eles se têm aproveitado dessas oportunidades. Temos de ter coragem de escolher o que nos interessa, não no imediato, mas para as gerações futuras. O cidadão está sempre à espera que os políticos resolvam, mas não é esse o caminho.
Sem assinaturas, não há sustentabilidade
O Correio da Feira é a prova de que a maioria dos leitores não está disposta a pagar para aceder à informação – o número de assinantes caiu nos anos anteriores à suspensão. Como é que isso se combate no contexto atual? Julga ser possível ou o jornalismo está ‘condenado’?
Foi o problema do Correio da Feira. Nada teve a ver com a qualidade do trabalho que o jornal produzia, porque tinha uma excelente equipa, muito profissionais. O problema é que a informação que hoje temos é tanta, chega-nos através de tantas vias, que questionamos o porquê de termos de pagar pelo que recebemos gratuitamente. Mas quem paga, seleciona o que quer receber, porque receber tudo é desinformação. Interessa-me receber informação de qualidade, produzida por profissionais capazes de escreverem informação isenta. Temos de saber escolher com qualidade. É por haver vários caminhos que temos de escolher o que nos dá mais acesso à luz: a informação fidedigna.
Nunca fui apologista de apoios e sou contra subsídios. Não é a Autarquia que tem de defender o Correio da Feira, mas o consumidor. Se o produto é desejado ou querido, as pessoas têm de pagar para o ter. Tínhamos imensos leitores, o número tinha inclusive aumentado, o interesse pelo jornal aumentou, mas não estavam interessados em pagar para ler. Fazerem uma assinatura, que era o que dava sustentabilidade à equipa, composta por quatro pessoas, não faziam.
Mas acha possível uma mudança? Acredita que os leitores vão perceber que é necessário filtrarem a informação recebida?
É muito difícil. Mas tenho de ser positivo e deixar essa mensagem de positividade às gerações futuras. Podemos dizer-lhes para verem o caminho e consequentes erros que estamos a cometer hoje, para não os cometerem no futuro e seguirem o caminho correto. O ser humano tem a capacidade de corrigir erros, mas neste momento não, porque os próprios atores políticos estão a servir-se dessa incapacidade que as populações têm de selecionar informação, para jogarem com a desinformação, tanto nas redes sociais, como nos canais de comunicação. Vejamos o que o Governo dos Estados Unidos faz: usa-se de um canal televisivo para se promover e disseminar desinformação. Se uma parte da população começar a despertar e perceber que estamos a agir mal, pode transmiti-lo às gerações futuras, que podem mudar o rumo. Essa mudança acontecer no nosso tempo, é complicado.
Atualmente, a mensagem que estamos a transmitir às gerações futuras, com encerramentos constantes de títulos, é de desvalorização da profissão?
O encerramento da imprensa tradicional não diz muito aos jovens. Se lhes falarmos sobre encerra mentos de títulos, não têm conhecimento, sobretudo se forem regionais.
O Correio da Feira fez vários trabalhos nessa área e eram poucos, para não dizer quase nulos, os jovens que acediam aos jornais. Por isso é que é necessário deixarmos-lhes esse testemunho de que esta é a fonte mais pura e mais saudável que têm para ‘beber’. São os alicerces para sustentarem e aperfeiçoarem os regimes democráticos.
Sensacionalismo vs Rigor
Os hábitos de consumo de notícias estão a mudar, sobretudo nos jovens. Vários estudos revelam que as redes sociais são a principal fonte de consumo…
O que tem muito a ver com a forma como apresentamos a notícia, como a colocamos ao dispor. Nunca vamos atingir a população total, porque ler não é um ato que agrade à maior parte da população, mas um dos problemas do jornalismo é a falta de profissionalismo de uma grande parte do sector. Vejamos o recente caso do ministro da Presidência, cujo nome foi envolvido num caso de corrupção. Ninguém sabe o nome da pessoa que cometeu alegadamente corrupção, no en tanto sabemos todos que é cunhado do ministro Leitão Amaro. Estamos perante um jornalismo corrompido. O que é que o ministro tem a ver com as suspeitas sobre o cunhado? É algo completamente característico dos tempos em que vivemos: sensacionalismo completa mente direcionado a manchar o nome de uma pessoa.
O Correio da Feira tinha títulos que chamavam a atenção nas redes sociais, sem desvirtuar; havia isenção e profissionalismo.
A ‘guerra’ de audiências levou a que o sensacionalismo ganhasse palco nos últimos anos? O que nos leva a procurar a sensação enquanto leitores?
A imprensa está muito dividida por setores partidários e é o grave problema. Os jornalistas podem ter a sua identidade política – têm o direito de ter –, só não o devem refletir no seu trabalho.
Sempre se procurou por algo que fosse emotivo, que levasse as pessoas a lerem, mas não deveríamos ir buscar sensações que pusessem em risco personalida des, que desvirtuassem completamente a informação.
Porque é que faz questão que o Correio da Feira tenha uma edição anual?
Enquanto puder e enquanto tiver uma equipa que me garanta um trabalho que me orgulha e que os próprios jornalistas se orgulham, farei para que o título não se perca. Se amanhã quiser voltar a colocar o Correio da Feira nas bancas, ou algum feirense queira, que tenha essa possibilidade.
É uma tentativa de preservar a marca. O título está entre os mais antigos do país e tenho pena que isso se perca, por isso vou fazer os possíveis para que o jornal se mantenha ‘vivo’.











