Começou no Lusitânia de Lourosa, passou pelo ARD Vilamaiorense, teve duas passagens pelo Novasemente, jogou duas épocas em Itália e representou Restauradores Avintenses e Vermoim, até se sagrar campeã nacional pelas cores do Nun’Álvares, onde se despediu da quadra. Agora, a antiga futsalista quer deixar um novo legado, promovendo a corrida e o desporto acessível a todos no concelho de Santa Maria da Feira
O percurso de Cátia Balona funde-se com a própria evolução do futsal feminino em Portugal. Quando deu os primeiros passos na modalidade, ao serviço do Lusitânia de Lourosa, a realidade era bem diferente da atual: pouco mediatismo, pavilhões com pouca assistência e condições amadoras. “Quando comecei a jogar, o futsal feminino era quase invisível. Fui crescendo ao mesmo tempo que a modalidade foi ganhando espaço, respeito e visibilidade. Quando fui jogar para Itália, percebi bem a diferença. O futsal feminino era já tratado com outra seriedade, outro investimento”, recorda a ex-atleta sobre a experiência em Itália durante duas épocas, no Città di Sora e no Portos, que acabou por representar um ponto de viragem importante na sua perceção do futsal feminino.
Ao competir fora de Portugal, encontrou um contexto onde o profissionalismo e o investimento eram notórios. “Foi das experiências mais importantes da minha vida, dentro e fora do futsal. Adorei jogar em Itália. Recomendo a qualquer jogadora que se tiver a oportunidade, não hesite. Estar longe da família, numa cultura diferente e com uma nova língua obrigou-me a crescer muito depressa. Éramos um grupo de portuguesas, o que facilitou a adaptação, mas a exigência dentro da quadra era outra”, revive, aos 37 anos. O futsal era encarado com outro nível de profissionalismo e maior atenção ao detalhe, o que a levou a desenvolver, diz, uma melhor leitura coletiva do jogo, a gerir melhor o esforço e a valorizar aspetos táticos e físicos que, até então, não tinham o mesmo peso no seu percurso.
Já quando regressou ao país, sentiu uma mudança na modalidade. “Merecia maior atenção, havia mais clubes a apostarem a sério, mais miúdas a quererem jogar. Acho que a minha carreira reflete isso: comecei num contexto muito amador e fui evoluindo com a modalidade [até se sagrar campeã]. Recordo que quando regressei a Portugal, os meus critérios eram outros: queria projetos sérios, com ambição real de lutar por títulos. O Vermoim foi uma experiência diferente, o regresso ao Novasemente também e o Nun’Álvares foi o culminar de tudo isso, foi onde vivi algo especialmente bonito na última época. Foi uma espécie de conquista coletiva, tanto minha como do futsal feminino português”, considera a personal trainer, natural de Santa Maria de Lamas, que se despediu dos palcos na época transata, como campeã nacional.
Ao olhar para trás, Cátia Balona identifica a paixão pelo jogo como o principal motor de uma longa carreira, embora sublinhe que o entusiasmo, por si só, nunca seria suficiente. “É preciso disciplina e uma enorme capacidade de gerir o cansaço. Durante anos, acordava às seis da manhã para dar aulas como personal trainer e chegava ao treino já com um dia de trabalho ‘nas costas’. Isso poderia ter-me consumido, mas acho que me tornou mais forte. O meu trabalho ajudou-me a perceber o corpo de outra forma: a alimentação, a recuperação e o reforço muscular. Foi determinante para aguentar dois anos a jogar em Itália, para recuperar de duas lesões graves no joelho e para continuar competitiva na 1.ª Divisão bem depois dos 30 anos”.
Internacional A por duas ocasiões, nunca abandonou o trabalho como personal trainer a tempo inteiro, conciliando-o com o estatuto de atleta de alta competição. Dois mundos que se misturam, mas que “também se chocam”. “O corpo tem limites, o descanso é fundamental, e houve épocas em que cheguei ao treino já exausta depois de horas a dar aulas. Mas essa realidade também me fez uma jogadora diferente”, começa por dizer, revelando, de seguida, como essa realidade moldou a forma de estar no desporto. “Aprendi a usar a velocidade de forma eficiente em vez de gastar energia a driblar sem propósito. Aprendi a recuperar melhor. E aprendi que quando se ama genuinamente o que se faz, seja treinar pessoas ou jogar futsal, não há cansaço que vença essa motivação. Não me importava chegar à meia-noite a casa depois de um dia longo. O que fiz sempre foi por gosto”, diz, visivelmente orgulhosa.
Um novo legado em construção
Cátia Balona vive agora uma nova etapa, longe da competição profissional, mas intimamente ligada ao desporto. A decisão de terminar a carreira surgiu quando percebeu que já não conseguia estar ao mesmo nível de exigência a que sempre se propôs e o fim dificilmente poderia ter sido mais emblemático. A despedida aconteceu após a conquista do campeonato nacional, um ‘velho’ objetivo. “Há uma parte de mim que sempre quis ser campeã nacional e ainda não tinha conseguido. Ter conseguido no Nun’Álvares, nessa época, com aquele grupo, foi perfeito. Só que o corpo foi enviando sinais. Há muito tempo que dizia que a idade é um posto. O descanso passou a pesar mais, a recuperação demorava mais…”.
Hoje está dedicada ao treino personalizado e tem novos projetos que a “enchem tanto como a quadra um dia encheu”. “Como personal trainer, continuo a acreditar nas mesmas coisas que me guiaram como atleta: disciplina e consistência. Só que agora o palco são as pessoas com quem trabalho. Ver alguém superar um limite que julgava intransponível é tão emocionante quanto marcar um golo importante. E o que aprendi sobre alimentação, recuperação e mentalidade desportiva, aplico no trabalho com os meus clientes”, explica Cátia Balona, que recentemente lançou-se no desafio ‘Feira Inteira a Correr’, ligando as 31 freguesias do Concelho a correr.
Com o lema ‘Não se corta um concelho aos bocados. Corre-se por inteiro’, o projeto nasceu com um objetivo: promover a atividade física como prática acessível a todos, enquanto valoriza o território e reforça a ligação entre freguesias, instituições e cidadãos. “Sempre senti que o Concelho tem uma energia desportiva incrível que merece ser aproveitada. Antes do futsal, pratiquei atletismo durante anos, por isso a corrida está no meu ADN. Este desafio é uma forma de devolver à comunidade o que o desporto me deu. Não é uma prova de alta competição, é um convite a sair de casa, a correr pelo Concelho, a criar memórias coletivas”, afirma.
Depois de somar os 100 quilómetros nas pernas, para percorrer todo o território feirense, garante ainda que este é apenas o começo de um caminho mais amplo e inclusivo. “’Feira Inteira a Correr’ é um início, não um fim”, atesta, deixando clara a intenção de continuar a investir em projetos que aproximem o desporto da população. A prioridade, explica, passa por tornar a prática desportiva mais acessível e próxima da comunidade, sobretudo para aqueles que ainda não deram o primeiro passo. “Quero continuar a trabalhar em iniciativas que levem o movimento às pessoas de forma acessível, não só para quem já é atleta, mas especialmente a quem ainda não deu o primeiro passo”, sublinha.
O grande objetivo é consolidar Santa Maria da Feira como uma referência desportiva. “Há muito a fazer ao nível da promoção do desporto feminino, do desporto jovem e também do desporto sénior, que tantas vezes fica esquecido. O meu objetivo é que Santa Maria da Feira continue a ser uma referência desportiva, não apenas pelas infraestruturas ou pelos resultados na alta competição, mas pelo número de pessoas que o desporto abraça no dia a dia. É esse legado que me interessa construir”.











