“A riqueza da União está precisamente na diferença de cada freguesia”
Entrevista Freguesias Política

“A riqueza da União está precisamente na diferença de cada freguesia”

Entrou na política quase ‘por acaso’, foi adjunta de Amadeu Albergaria, à altura vereador e atualmente presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, mas tornou-se vereadora da Educação e um dos rostos mais mediáticos da Autarquia. Seguiu-se a presidência da Assembleia Municipal e agora, após vitória nas Autárquicas de 2025, na nova presidente da União de Freguesias de Santa Maria da Feira, Travanca, Sanfins e Espargo, sucedendo ao também carismático Fernando Leão.

Focada na proximidade com a população, priorizando a resolução de problemas quotidianos, Cristina Tenreiro destaca ainda a importância de construir uma verdadeira identidade comum entre as quatro freguesias que compõem a União.

A autarca abordou ainda temas centrais, como a túnel da Cruz ou o centro coordenador de transportes, e aludiu sobre a importância do reforço de competências das juntas e uniões de freguesias

CF — Depois de muitos anos como vereadora, depois presidente regressa agora à política numa função diferente. Como se está a sentir neste novo papel político?

Cristina Tenreiro — Sinto-me bem, feliz e motivada. É um papel muito diferente daquele que desempenhei enquanto vereadora, mas muito gratificante. É preciso perceber — e penso que poucas pessoas têm essa noção — que as competências de um presidente de junta são bastante limitadas. Aliás, já se fala há algum tempo em aumentar essas competências.

A grande responsabilidade passa, sobretudo, por chegar às pessoas e ajudá-las a resolver os seus problemas. Numa fase inicial, fiquei até surpreendida porque as principais preocupações que me chegavam eram questões muito básicas: a rua, a limpeza do passeio, pequenos problemas do dia a dia.

Mas isso também me fez refletir. Por um lado, significa que as pessoas já têm assegurado um conjunto de bens e serviços essenciais.

Respondendo diretamente à pergunta: sinto-me bem e continuo a não estou aqui a fazer nenhum favor a ninguém, nem considero este cargo menor. Pelo contrário, o trabalho de proximidade é muito intenso e exige uma grande entrega. Vejo esta função como uma oportunidade de melhorar pequenas coisas que fazem diferença na vida das pessoas.

Qual foi a prioridade inicial da sua equipa?

O meu primeiro passo foi avaliar a situação e conhecer os “cantos à casa”.

Neste momento, estamos a começar a implementar o nosso programa, começando precisamente pela proximidade. Queremos ouvir as pessoas. Já realizámos assembleias descentralizadas e é isso que vamos continuar a fazer, tentando chegar cada vez mais perto da população. Queremos uma junta aberta e próxima da população.

A junta tem as portas abertas. Faço atendimento ao final do dia duas vezes por semana e, uma vez por semana, de manhã, em Travanca. Aqui estou, regra geral, às segundas de manhã e às terças e quintas-feiras durante a manhã.

Ao mesmo tempo, queremos trabalhar para sermos verdadeiramente uma união. Somos quatro freguesias e o nosso grande objetivo é que deixemos de ser apenas quatro entidades agregadas e passemos a ser realmente uma união de freguesias. Estamos a trabalhar nesse sentido: criar um espaço onde as pessoas gostem de viver, sintam orgulho no território e prazer em fazer parte dele.

Não estou aqui a fazer nenhum favor a ninguém, nem considero este cargo menor. Pelo contrário, o trabalho de proximidade é muito intenso

Cristina Tenreiro
Fotos: CF

Sucessão estratégica

A Cristina Tenreiro apresentou-se como uma candidata com um nome forte. Sentiu que a sua escolha teve também uma dimensão estratégica, sobretudo depois de uma liderança tão longa e carismática de Fernando Leão?

Penso que sim, que foi uma escolha estratégica. Tínhamos um presidente que esteve quase 30 anos no cargo, muito carismático, muito próximo das pessoas e muito querido pela população, sobretudo pelos grupos mais desfavorecidos.

Depois de tantos anos, era importante encontrar alguém com um perfil capaz de assegurar essa continuidade de proximidade.

Foi um choque quando surgiu o convite. Nunca foi algo que tivesse passado pela minha cabeça. Apesar de viver aqui há cerca de 30 anos, sempre achei que este cargo seria ocupado por alguém ‘nascido cá’.

O grande argumento que me apresentaram foi precisamente o facto de eu ser uma pessoa acarinhada pela comunidade. Durante os anos em que fui vereadora trabalhei muito com associações, escolas e com a área da cultura. Acabei por entrar na vida de muitas pessoas e criar relações de proximidade. Aquilo de que mais me orgulho no desempenho das minhas funções públicas é precisamente de ter ficado no coração de muita gente.

Penso que foi essa ligação humana que acabou por permitir esta candidatura.

Houve também conversa com o anterior presidente e senti uma reação muito positiva da parte dele, o que naturalmente ajuda numa transição.

No fundo, aquilo que considero ser a minha principal mais-valia é a capacidade de ouvir as pessoas e procurar fazer o melhor possível.

O cargo correspondeu às expectativas?

Confesso que imaginava que existissem mais competências de decisão e transformação direta.

Na prática, o trabalho passa muito por ouvir as pessoas, articular soluções com outras entidades e procurar resolver problemas concretos do dia a dia.

Apesar disso, sinto-me muito bem neste desafio. Gosto do que estou a fazer e não estou minimamente arrependida.

Sinto também que as pessoas perceberam que, apesar de ser diferente do anterior presidente, continuo a ser uma pessoa próxima.

E isso é essencial. As pessoas gostam de proximidade, de um sorriso, de sentir que são ouvidas.

Defende mais competências para as uniões/juntas de freguesia?

Claramente. As juntas conseguem dar respostas muito rápidas às pessoas, sobretudo em situações de emergência ou problemas imediatos.

Mas para isso precisamos de mais competências e também de técnicos especializados em determinadas áreas.

Hoje não podemos resolver problemas complexos, apenas ‘tapar buracos’. Precisamos de soluções sustentáveis e técnicas adequadas nas áreas ambientais, urbanísticas ou hidráulicas, por exemplo.

Acredito que o futuro passará inevitavelmente por juntas de freguesia mais capacitadas e mais preparadas tecnicamente.

Suceder a um presidente com quase 30 anos de mandato também traz dificuldades acrescidas.

Claro. São lideranças diferentes. Há vantagens, porque não se parte do zero, mas também há dificuldades.

Muitas vezes ouço comparações: “Com o Fernando era diferente”. E eu compreendo isso. Mas também procuro explicar que a vida evolui.

Nestes primeiros meses tivemos a preocupação de não provocar mudanças bruscas. Primeiro porque é importante respeitar aquilo que existia antes. Mas também sabemos que há áreas onde é necessário mudar e evoluir.

Hoje temos de ter consciência de que fazemos parte de um dos maiores concelhos do país. Santa Maria da Feira é uma cidade reconhecida internacionalmente e cada vez mais multicultural.

Temos de ter, no mínimo, uma dimensão europeia na forma como pensamos o território e os seus desafios.

Foto: CF

“Criar uma verdadeira União”

Um dos objetivos passa também por reforçar a união entre as quatro freguesias?

Sem dúvida. Não é um processo fácil, até porque estamos a falar de identidades construídas ao longo de centenas de anos. Em alguns casos existiam até rivalidades.

Mas esse é claramente o caminho: criar uma verdadeira União.

Não sei se em quatro anos vamos conseguir atingir totalmente esse objetivo, mas já sinto diferenças positivas. As freguesias começam a sentir-se mais próximas. Cada freguesia tem a sua identidade, mas juntas são muito mais fortes.

Durante a campanha houve algo que me surpreendeu muito: cada freguesia sentia-se abandonada e achava que as outras recebiam mais atenção. Até Santa Maria da Feira sentia isso.

Hoje noto uma mudança no discurso. A riqueza da união está precisamente na diferença de cada freguesia.

Relativamente ao programa, já existem mudanças concretas no terreno?

Sim, já há algumas mudanças visíveis.

Por exemplo, retomámos iniciativas que já não aconteciam há alguns anos e estamos a descentralizar atividades pelas várias freguesias.

Tivemos o primeiro encontro com pré-mamãs, pré-papás e jovens pais, integrado no programa de incentivo à natalidade.

Mas, antes de apresentar medidas, queremos ouvir as pessoas. Muitas vezes achamos que temos excelentes ideias, mas elas podem não corresponder às reais necessidades da população.

Estamos também a trabalhar num novo programa de apoio ao associativismo e queremos incluir uma vertente dedicada ao associativismo jovem.

Outra prioridade muito importante é a limpeza urbana e a manutenção dos jardins. Já percebemos que, apenas com os recursos humanos da junta, não conseguimos dar resposta adequada, por isso estamos a pedir orçamentos para contratar empresas externas.

Já estamos a começar a trabalhar a situação de cemitério de Espargo, que estávamos a contar que estivesse mais adiantado.  O processo ainda está muito atrasado e como estamos a começá-lo quase de raiz, vamos aproveitar já fazer dois em simultâneo: Espargo e Sanfins.

E quais são as grandes prioridades para o futuro?

A educação continuará a ser uma prioridade, assim como o trabalho com escolas e associações.

Queremos apostar em projetos diferenciadores, programas Erasmus, já estamos a estabelecer parcerias com o Rosto Solidário, educação ambiental, inclusão, direitos humanos e literacias diversas.

Também queremos reforçar a ligação entre as diferentes comunidades e criar mais coesão territorial.

O desporto será igualmente importante. Pretendemos criar circuitos pedonais que liguem as várias freguesias.

Além disso, estamos já em processo de aquisição de mobiliário urbano, como bancos de jardim e papeleiras, para melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Paralelamente, continuamos a trabalhar com o Município em projetos estruturantes: equipamentos escolares, nomeadamente o Centro Escolar em Travanca, que já identificámos novos terrenos, a Fernando Pessoa já está também a andar, desportivos, como a Pista de Atletismo de Sanfins, e espaços de lazer, ao lado do CAF.

Há ainda uma forte preocupação com a habitação e com a necessidade de acelerar processos para atrair investimento e permitir mais construção no território.

Hoje, freguesias como Travanca são cada vez mais procuradas para habitação individual, o que mostra a atratividade crescente do território.

As juntas de freguesia conseguem dar respostas muito rápidas às populações, mas precisamos de mais competências e técnicos especializados

Cristina Tenreiro
Foto: CF

O problema da mobilidade

Outro assunto que continua a ser muito falado: o centro coordenador de transportes. Ainda é uma prioridade?

Continua a ser um problema e continuará a ser um tema importante. Na última reunião que tive com o presidente da Câmara, abordámos precisamente essa questão.

A informação que nos foi transmitida é que, a curto prazo — independentemente da construção do túnel [da Cruz] —, será criada uma estrutura moderna junto ao Pingo Doce para servir de interface entre diferentes meios de transporte.

Acredito que essa solução poderá mitigar muitos dos problemas atuais relacionados com os autocarros que circulam desorganizados pelo centro da cidade. Parece-me uma localização adequada e penso que foi escolhida precisamente porque já existe ali procura e utilização espontânea por parte dos transportes.

Aliás, acredito muito que os equipamentos públicos devem surgir onde as pessoas naturalmente já utilizam os espaços.

A mobilidade continua então a ser uma preocupação?

Muito. Principalmente para a população mais envelhecida. Sentimos grandes dificuldades nas deslocações para hospitais, centros de saúde e farmácias, sobretudo para pessoas das freguesias mais afastadas.

Neste momento estamos a estudar soluções para garantir determinados horários ou transportes a pedido para esses cidadãos. A atual rede pública de transportes não responde de forma suficientemente eficaz às necessidades destas pessoas.

E relativamente ao túnel da Cruz?

É uma obra há muito desejada, mas é importante perceber que será um processo longo.

Quando vim viver para Santa Maria da Feira, há cerca de 30 anos, já se falava no túnel. Mais tarde, enquanto vereadora, continuei a ouvir falar do projeto, mas a verdade é que nunca foi uma prioridade efetiva da Câmara, nem era da sua competência.

Na altura existiam outras prioridades: saneamento, centros escolares e outras infraestruturas essenciais.

Agora é diferente. Finalmente a Câmara assumiu diretamente a responsabilidade pelo processo. O projeto já avançou para concurso e está em desenvolvimento.

Mas temos de ser realistas: só daqui a quatro, cinco ou seis anos começaremos verdadeiramente a sentir os resultados.

É uma obra que poderá transformar a cidade.

Sim. Vai provocar uma mudança profunda.

Durante algum tempo haverá dificuldades, obras, trânsito e constrangimentos. Mas crescer implica sempre algum desconforto.

O objetivo é criar uma cidade mais unida, mais urbana e mais amiga das pessoas. Não queremos uma cidade dividida por vias rodoviárias.

Defendo uma cidade onde seja possível caminhar, circular a pé e usufruir do espaço público. O carro continuará a ser importante, mas não pode continuar a ser a prioridade absoluta. Em Santa Maria da Feira ainda se dá muita primazia ao automóvel próprio.

Mas hoje já vemos muitas famílias a utilizar parques, passadiços e zonas verdes ao fim de semana, o que me deixa muito orgulhosa. Isso mostra que as pessoas querem viver a cidade de outra forma.

A cidade precisa de árvores, jardins e espaços de convivência.

Sem “privilégios, nem tratamento diferente”

Como tem sido a relação com a Câmara Municipal, agora num papel diferente?

Tem sido uma relação muito tranquila. Naturalmente conheço bem a estrutura e isso facilita algumas coisas.

Mas também faço questão de não querer privilégios, nem tratamento diferente dos restantes presidentes de junta.

Conhecer as pessoas e os serviços ajuda, claro, mas aquilo que peço está sempre dentro do razoável e do exigível.

Quando saiu da vereação pensava que a sua vida política tinha terminado?

Sim. Eu entrei na política quase ‘de paraquedas’.

Nunca fui uma pessoa muito ligada aos partidos, nem aos bastidores políticos. Fui convidada, na altura, muito pela minha experiência profissional enquanto diretora escolar.

O primeiro convite que recebi era até para um lugar não elegível. Nunca tive a ambição de fazer carreira política.

Nunca teve ambição de subir politicamente?

Não. Sempre procurei equilíbrio entre a vida pública e a vida familiar.

Sou casada, tenho duas filhas, netos, e sempre considerei que existem cargos políticos que exigem uma disponibilidade total. E nunca quis sacrificar completamente a minha família. Já como vereadora implicava, digamos, algumas dores, algum sofrimento. A exposição e as implicações que tinha.

Quando abraço um projeto, gosto de me entregar a 100%, mas também preciso de sentir que a minha família está bem.

Por isso, determinadas funções nunca fizeram sentido para mim.

Fora da política, continua a dar aulas?

Continuo, no Agrupamento de Escolas Coelho e Castro. A minha vida não mudou radicalmente.

Naturalmente estou mais ocupada e cada vez sinto mais necessidade de andar no terreno, de percorrer as ruas e perceber melhor os problemas das pessoas.

Mas continuo a manter a minha atividade profissional.

[Túnel da Cruz] Agora a Câmara assumiu a responsabilidade pelo processo, mas só daqui a quatro, cinco ou seis anos começaremos verdadeiramente a sentir os resultados

Cristina Tenreiro
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Nélson Costa

Nélson Costa
Jornalista de formação e por paixão. Curioso, meticuloso, bom ouvinte, observador até das próprias opiniões.
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