O aumento dos preços, a subida das taxas de juro e os salários que não acompanham a valorização do mercado, estão a afastar os jovens da compra da primeira casa. Santa Maria da Feira é um dos concelhos cujos imóveis têm valorizado e João Lourenço, da Em Casa Imobiliária, antecipa crescimento nas freguesias a norte do Concelho. A crise tem provocado o aumento dos pedidos de apoio habitacional
Comprar casa tornou-se um desafio, ou mesmo uma dor de cabeça, para a maioria dos jovens portugueses. O que para gerações anteriores era um objetivo acessível, após alguns anos de trabalho, nos dias de hoje parece cada vez mais distante. Os custos de construção, o aumento das taxas de juro, a procura – nacional e internacional –, que excede a oferta, e o desfasamento entre salários e preços do mercado imobiliário estão entre os vários fatores que explicam a atual realidade vivida em território nacional.
Cristiana Marques e Manuel Campos são o rosto dos casais que atravessam a luta diária por uma habitação acessível. Ao sentirem a necessidade de terem um espaço próprio, há sensivelmente um ano e meio, começaram a procura pelo primeiro lar, onde iriam começar a construir uma vida a dois. Mais de 365 dias depois, continuam a procura e pelo caminho tiveram de ajustar as expetativas iniciais, face à realidade. “Inicialmente procurávamos uma casa pequena para reconstruir ou então uma nova, preferencialmente mais próxima dos centros de Santa Maria da Feira e S. João da Madeira. No entanto, devido aos preços elevados nessas zonas, tivemos de ajustar as nossas expectativas e começámos a considerar apartamentos nas periferias. Essa mudança implicou abdicar de alguns critérios, tanto ao nível da localização como do tipo de imóvel”, conta Cristiana Marques.
Apesar do crescimento económico nacional, os rendimentos dos jovens não acompanharam a valorização do mercado imobiliário. Em muitas zonas urbanas, especialmente nas grandes cidades, os preços das casas avançaram muito mais do que os salários, tornando a compra um processo complicado. A alternativa passou a ser a reformulação das escolhas. “Os preços elevados obrigaram-nos a reconsiderar não só a tipologia da casa que procuramos, mas sobretudo a localização, levando-nos a optar por zonas mais afastadas e com menos condições/serviços na zona”.
Outro fator decisivo é a subida das taxas de juro. Perante a inflação, o Banco Central Europeu agravou as taxas de juro, encarecendo o crédito à habitação. Prestações mensais mais altas e maior exigência por parte dos bancos na aprovação de empréstimos, traduz-se no incumprimento de muitos jovens no acesso ao crédito e/ou limitação a valores de crédito mais baixos, insuficientes para os preços atuais. “A subida das taxas de juro teve um impacto direto na nossa capacidade de financiamento, o que influenciou o tipo de casa que podemos considerar. Acaba por estar tudo interligado: com juros mais altos, o orçamento disponível diminui”, sustenta a jovem, natural de Lobão.
Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o preço mediano da habitação em Portugal atingiu 2.076 euros por metro quadrado em 2025, o que representa uma subida de 16,8% face a 2024. Já de acordo com um estudo divulgado pelo portal Idealista, entre 2020 e 2025, “o número de casas à venda até 200 mil euros caiu 73%”, deixando as famílias sem opções dentro dos limites de esforço. Mesmo o escalão entre 200 mil e 300 mil euros recuou. Cristiana Marques já se deparou com os referidos preços e condições, considerando-os incomportáveis. “Encontrámos apartamentos bastante antigos, a necessitar de obras significativas, a serem vendidos por valores superiores a 200 mil euros, o que consideramos desajustado face às condições dos imóveis”, diz.
O atual apoio estatal à compra de casa para jovens até aos 35 anos permite financiamento bancário a 100% (através de garantia pública de até 15% do valor do imóvel) e isenção de IMT e Imposto de Selo. A medida representa um dos apoios fiscais mais significativos para facilitar o acesso à habitação entre os mais novos, porém, não satisfaz, na totalidade, este jovem casal. “Sentimos que, no nosso caso, as medidas do Estado não têm um impacto significativo. Consideramos que seria mais útil haver uma maior regulação dos preços, assim como uma simplificação dos processos burocráticos para quem quer construir. Facilitar o acesso à construção própria e tornar os custos mais equilibrados seriam medidas que fariam realmente diferença”.
Com o projeto de vida em suspenso, chegam as consequências que esta procura infrutífera tem tido na vida pessoal e profissional de ambos. “É um processo desgastante, que gera ansiedade, nervosismo e alguma frustração, especialmente quando sentimos que os objetivos estão cada vez mais difíceis de alcançar. Esse desgaste acaba também por influenciar outras áreas da vida, incluindo as nossas escolhas profissionais”, confessa Cristiana Marques, enquanto aguarda por uma chave que tarda em chegar.
“A guerra no Irão deverá ter impacto nos próximos meses”
João Lourenço é gerente da empresa Em Casa Imobiliária, em Santa Maria da Feira, e tem sentido de perto as dores dos jovens. “Os preços atuais têm um impacto significativo nos jovens. A maioria recorre a créditos e as prestações ficam mais altas. O que tem amenizado são as medidas implementadas pelo Governo, nomeadamente o Crédito Jovem, que traz algumas facilidades (isenção de impostos e crédito a 100%), além da aplicação de taxas fixas ou mistas que dão alguma estabilidade. No entanto, a inflação não tem ajudado, deixando menos dinheiro disponível para os jovens e a vida não é só a casa”, comenta.
Situado entre o Porto e Aveiro, o concelho de Santa Maria da Feira permite o fácil acesso a grandes centros urbanos, beneficiando de ligações rodoviárias, como a A1 e a A29. Isto torna-o ‘apetecível’ para quem procura um imóvel. “É um dos grandes concelhos a nível nacional e que apresenta características muito fortes, como boas vias de comunicação e proximidade a grandes cidades e zonas industriais. São fatores que motivam a procura”.
Segundo João Lourenço, foram nos anos de 2022 a 2024 e 2025/26 que aconteceram “as maiores valorizações na venda – a rondar os 65% na compra – fruto, sobretudo, da subida do preço das matérias-primas, essencialmente após a pandemia da Covid-19”, o que poderá vir a sentir-se, novamente, em breve. “Outros acontecimentos vão surgindo, como a guerra no Irão, que, infelizmente, deverá também ter impacto nos próximos meses”, antecipa.
Santa Maria da Feira, Travanca e S. João de Ver são os três territórios cujos imóveis “têm sofrido valorizações recentes consideráveis e ainda apresentam potencial para crescer, face aos bons acessos, à proximidade a grandes centros urbanos e à indústria [conta com várias zonas industriais e parques empresariais, que atraem multinacionais, contribuindo para o aumento de postos de trabalho e consequentemente de um maior número de residentes”. Já as freguesias de Santa Maria de Lamas, Rio Meão, Canedo e Lobão são as que projeta um crescimento nos próximos anos. “A proximidade às cidades de Vila Nova de Gaia e Porto acabam por ajudar as freguesias a norte do Concelho”, explica.
Autarquia responde com reforço da ELH
Contactada pelo Correio da Feira, a Câmara Municipal de Santa Maria da Feira mostra que tem acompanhado o aumento do número de pessoas que escolhem o Concelho para viver e fixar residência, quer de famílias do próprio Concelho, quer de pessoas vindas de outros territórios, que encontram proximidade aos grandes centros urbanos e “equilíbrio entre qualidade de vida e custo habitacional”. No entanto, é portadora de outros números, revelando também um aumento das necessidades habitacionais. Os dados da Divisão de Habitação Municipal mostram um crescimento significativo de pedidos por parte de famílias monoparentais e de agregados unipessoais em situação de maior vulnerabilidade social e económica, particularmente em freguesias como Santa Maria da Feira, Lourosa e Fiães.
“Os dados mostram uma pressão crescente entre os rendimentos das famílias e os valores praticados no mercado habitacional, sobretudo para os jovens e para a classe média.
Apesar do Concelho continuar a apresentar valores mais competitivos do que muitos territórios da Área Metropolitana do Porto, sentimos um aumento das dificuldades no acesso à habitação e um crescimento dos pedidos de apoio habitacional”, dá nota o Município, que respondeu com o reforço da Estratégia Local de Habitação (ELH). “O Município decidiu reforçar a ELH e avançar com medidas concretas para aumentar a oferta de habitação acessível, quer através de investimento público, quer criando condições para mobilizar investimento privado. Estamos a trabalhar numa lógica de médio e longo prazo, articulando investimento público, programas nacionais e capacidade de atração de investimento privado”.
Em termos concretos, a Autarquia tem prevista a construção de três empreendimentos de habitação acessível, num total de 63 fogos destinados a cerca de 189 pessoas (atualmente em fase de projeto de execução). “Dois em Santa Maria da Feira, com 28 e 16 fogos, e um em Gião, com 19 fogos, que prevemos estarem concluídos em 2029”, esclarece.
Já no âmbito do Regime de Arrendamento Apoiado, indica que está previsto a abertura de um concurso público, por sorteio, para atribuição de 36 habitações do Parque de Habitação Municipal, “cujo regulamento seguirá em breve para consulta pública”, e, posteriormente, prevê ainda a “abertura de novo concurso para atribuição de mais 20 habitações”.
“A habitação é um desafio coletivo”
Convictos de que o desafio da habitação não se resolve apenas com intervenção pública, sendo necessário envolver investidores privados, cooperativas e diferentes entidades capazes de ajudar a aumentar a oferta habitacional, o Município assegura que tem vindo a promover essa articulação através de parcerias público-privadas e de soluções de promoção cooperativa, para que possam surgir projetos de habitação que respondam às necessidades. Nesse sentido, no âmbito da ELH e do Programa 1.º Direito, tem “asseguradas 11 áreas para construção de habitação a custos controlados, num total de 263 habitações distribuídas por várias freguesias do Concelho”. “Paralelamente, a futura Carta Municipal de Habitação permitirá identificar novas áreas de expansão urbana e novas oportunidades de desenvolvimento habitacional, sempre numa lógica de equilíbrio territorial e crescimento sustentável”, assinala.
Não obstante, a comunidade local também pode assumir um papel ativo neste âmbito. “A habitação é um desafio coletivo e exige o envolvimento de toda a comunidade. Os proprietários podem colocar imóveis no mercado de arrendamento acessível, através do Programa de Arrendamento Acessível, com benefícios fiscais, e apostando na reabilitação de património devoluto”. O mesmo se sucede com empresas, cooperativas e promotores privados, que podem contribuir com a criação de habitação. “O importante é percebermos que este problema não se resolve apenas com intervenção pública. Precisamos de respostas articuladas entre Estado, municípios, investidores, proprietários e comunidade”, conclui.











