“Persistem carências estruturais antigas como a mobilidade”
Entrevista Escolha da Redação Política

“Persistem carências estruturais antigas como a mobilidade”

Reforço da mobilidade e transportes públicos, e habitação são apontados como fragilidades do Concelho, por Susana Correia, membro do PS na Assembleia Municipal (AM) de Santa Maria da Feira

CF – Como avalia os primeiros meses desta AM, eleita para o quadriénio 2025-29, por sufrágio de 12 de outubro de 2025 (Autárquicas)?

Susana Correia – Estes primeiros meses têm sido marcados por um início de mandato ainda em fase de consolidação, sobretudo para os novos membros do grupo municipal do PS. Assumi a liderança do grupo e tenho procurado garantir a integração de todos na atividade da AM e no acompanhamento dos principais dossieres do Concelho.
 Têm existido debates relevantes e temas importantes trazidos à AM. Já integrava a AM no mandato anterior, pelo que há também uma continuidade no trabalho e na atenção a várias matérias.
 O PS tem procurado contribuir de forma construtiva, com propostas e recomendações úteis para Santa Maria da Feira, em diversas áreas, tais como a económica e social, a mobilidade, o ambiente e a proteção civil. A AM deve ser um espaço de escrutínio sério, mas também de participação e proximidade às pessoas.

Qual considera, atualmente, a principal prioridade para o Concelho?

Não é fácil apontar uma única prioridade. O concelho de Santa Maria da Feira tem várias necessidades urgentes, e muitas delas não são novas, mas diria que existem duas dimensões que, neste momento, se impõem e têm marcado a intervenção do grupo municipal do PS na AM: garantir melhores condições de vida às famílias e preparar Santa Maria da Feira para os desafios do futuro.

Quando falamos em melhores condições de vida, falamos de questões muito concretas do quotidiano das pessoas: a habitação, a mobilidade, o acesso à saúde, a educação dos seus filhos, o rendimento disponível no final do mês e a relação que as pessoas têm com o território.

Isso exige respostas claras ao problema da habitação, o reforço da mobilidade e dos transportes públicos, que continuam a ser uma das maiores fragilidades do Concelho, e uma maior sensibilidade que prepare o Concelho para os desafios da sociedade.

Susana Correia na Assembleia da República (DR)

Que decisão recente da CM ou da AM considera ter sido um erro e como o PS a corrigiria?

Considero que devemos evoluir para um modelo de funcionamento dos órgãos municipais que garanta maior acompanhamento e participação dos cidadãos. A ausência de transmissão online das reuniões públicas de Câmara é um exemplo claro disso, num contexto em que se exige maior proximidade e acesso à informação. Até ao momento, essa possibilidade ainda não teve a concordância do executivo PSD.

Também o facto de, na AM, a intervenção do público ocorrer apenas no final das sessões é, na nossa perspetiva, um obstáculo à participação, sobretudo quando as reuniões se prolongam por várias horas. Na última Assembleia, por exemplo, houve cidadãos inscritos que acabaram por abandonar a sessão sem intervir, já depois da meia-noite.

O PS defende, por isso, soluções simples e concretas: a transmissão online das reuniões públicas da Câmara Municipal, uma maior divulgação das decisões e um modelo de participação pública mais eficaz, que permita aos cidadãos intervir em tempo útil e em condições adequadas.

Como avalia o estado atual do Concelho: está melhor ou pior do que há cinco anos? Dê um exemplo concreto.

Santa Maria da Feira é um concelho com enorme dinâmica e potencial. A sua dimensão, a localização estratégica, o tecido empresarial e a sua história dão-lhe condições únicas para crescer e afirmar-se.

Mais do que colocar a questão em termos de ‘melhor ou pior’ do que há cinco anos, a preocupação deve estar em saber a que ritmo e de que forma o Município está a responder aos constrangimentos do dia a dia das pessoas. Se aumentou o número de jovens a praticar desporto, estamos a conseguir acompanhar essa evolução com infraestruturas adequadas? Se mais jovens procuram viver no Concelho, temos respostas e equipamentos ajustados às necessidades das famílias? Se queremos criar emprego e atrair investimento, estamos a apostar seriamente na modernização das zonas industriais?

A verdade é que persistem carências estruturais antigas que continuam por resolver e que acabam por ser pontos negativos. Um exemplo concreto é a mobilidade e os transportes públicos: continuam a existir dificuldades no acesso a serviços essenciais como o hospital, às escolas e outros equipamentos públicos, sobretudo para quem vive em freguesias mais afastadas.

Este é um tema com impacto direto na qualidade de vida, na igualdade de oportunidades e na fixação de jovens, pelo que deve ser tratado como uma prioridade estratégica e não como um problema pontual.

Santa Maria da Feira tem todas as características para ser um Concelho de referência e exemplo nacional em várias áreas.

Que medidas entendem necessárias para incentivar a uma maior participação dos jovens e cidadãos nas AM?

A participação aumenta quando as pessoas sentem que podem acompanhar, compreender e influenciar as decisões, e quando essa participação é facilitada, sem obstáculos. Por isso, há medidas básicas que considero essenciais: maior transparência, transmissão online das reuniões, comunicação mais acessível e atempada e simplificação do acesso à informação pública.

Além disso, é importante repensar o modelo de participação nos órgãos municipais, permitindo que o público possa intervir em momentos mais úteis do debate e não apenas no final das sessões, quando muitas vezes já é tarde e a participação se torna impraticável sem qualquer receio ou reserva de que essa participação possa constituir algum tipo de constrangimento aos eleitos.

No caso dos jovens, existem iniciativas muito positivas no Concelho, como o programa Jovem Autarca e o Conselho Municipal de Juventude, que devem ser mantidas e reforçadas. Há sempre margem para melhorar, envolvendo mais as escolas, as associações e criando espaços de debate mais regulares e próximos da realidade dos jovens.

Também os partidos políticos têm aqui um papel importante, ao abrirem espaço para que os jovens se possam afirmar e exercer uma cidadania ativa. Se queremos cidadãos participativos, temos de criar condições para que sintam, de facto, que a sua voz conta.

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Nélson Costa

Nélson Costa
Jornalista de formação e por paixão. Curioso, meticuloso, bom ouvinte, observador até das próprias opiniões.
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