Longe da terra onde cresceu, mas não verdadeiramente desligado dela, Miguel Costa construiu uma vida a milhares de quilómetros, fruto de escolhas que não estavam nos planos iniciais. Trocou a Psicologia pelo cockpit, sendo hoje um dos pilotos da companhia aérea de bandeira do Qatar. A viver em Doha, fala sobre o impacto da guerra no Médio Oriente e as particularidades do país
Vive a mais de sete mil quilómetros da terra que o viu nascer e pela qual guarda “muitas e boas memórias”. Miguel Costa diz que cresceu “com um forte sentimento de pertença”, num “local onde toda a gente se conhecia e onde se criavam memórias muito próximas”. O Castelo da Feira, o CD Feirense, o antigo Cineteatro, o Visionarium, a Viagem Medieval em Terra de Santa Maria e a fogaça são símbolos feirenses que lhe saltam à memória sempre que faz uma retrospetiva dos tempos de infância e juventude, que, ainda nos dias de hoje, “aborda com saudade”.
“Lembro-me perfeitamente de andar na Academia de Música da Feira, ao lado do Isvouga, quando tinha cerca de quatro/cinco anos. Dos meus tempos na primária, na Escola EB N.º1, e até da minha professora, a Miralda”, recorda, com nostalgia, aos 33 anos.
Licenciado em Psicologia, pela Universidade do Minho, onde posteriormente concluiu o mestrado em Neurociências, e onde realizou um estágio em Psicologia da Justiça, na Unidade de Justiça da referida instituição, Miguel Costa “sempre nutriu particular interesse por áreas relacionadas com o comportamento humano e criminalidade – motivação reforçada pelo entusiasmo por séries como Mentes Criminosas e CSI”, no entanto, a vida reservou-lhe outros caminhos profissionais, completamente desviados da área de formação inicial. Trocou a compreensão da mente e o comportamento humano pelo conhecimento técnico, a disciplina e a paixão pela aviação.
“Nunca considerei a aviação como uma opção de carreira. Recordo-me de, antes de ingressar na universidade, a minha mãe ter sugerido essa possibilidade por conhecer um amigo piloto, mas, naquela altura, o meu interesse estava voltado para as áreas da Criminologia e da Psicologia da Justiça. Além disso, tinha consciência do esforço e dos sacrifícios exigidos pela formação de piloto. Sempre fui um bom aluno, embora nunca tenha apreciado particularmente estudar, inclusive cheguei a dizê-lo à minha mãe”, começa por contar o feirense, que, após concluir o curso universitário, aventurou-se como hospedeiro de bordo na companhia aérea Ryanair, com a intenção de “ficar apenas um ano e regressar”. Ficou colocado na base da Ryanair de Birmingham, na Inglaterra, e uns meses foram suficientes para alterar toda a trajetória de vida. “Comecei a interessar-me verdadeiramente pelo trabalho desenvolvido no cockpit e decidi arriscar uma mudança de percurso”, afirma.
Entre turbulências e conquistas
O curso de formação de piloto é conhecido por ser exigente, tanto a nível académico como emocional. Disciplina, rigor e responsabilidade são competências exigidas e que o feirense teve de dominar. “Fiz o curso em Inglaterra, porque era onde trabalhava. Podia fazê-lo de duas formas: integrado ou modular. O curso integrado é mais intensivo e contínuo, normalmente feito em regime de tempo inteiro numa única escola, com uma estrutura definida, desde o início até à licença final. O curso modular é mais flexível, pois é dividido em etapas independentes, o que permite ao aluno avançar ao seu próprio ritmo, com pausas entre módulos, se necessário. É também possível, no modular, voar em simultâneo com a parte teórica”, começa por explicar Miguel Costa, acrescentando que as principais diferenças entre os dois cursos são “o ritmo de formação, a flexibilidade, o custo (o integrado é bastante mais caro), o número de horas de voo (por norma, o integrado costuma ter mais simulador e menos horas de voo efetivo) e a estrutura”.
Olhando ao seu estilo de vida, escolheu o modular. “Como estava a trabalhar na Ryanair, o modular permitiu-me, inicialmente, conciliar o trabalho com o estudo e as horas de voo na escola. Comecei a voar em fevereiro e em maio já tinha a licença de avião privada. Mas a parte mais difícil veio a seguir, quando decidi sair da Ryanair e focar-me a 100% nos estudos”. A exigência do curso exigiu dedicação total durante esse período. “São cerca de 14 exames para a licença de piloto ATPL (Airline Transport Pilot License) e temos seis oportunidades, até um máximo de 18 meses, para fazermos os 14 exames. Ou seja, é necessário planeamento, de forma a completar não só os 14 exames nas seis oportunidades, como também os exames práticos e horas de voo”, explica, referindo que a autogestão e a disciplina acompanharam-no no dia a dia, sem exceções. “Como não há uma estrutura, um plano de estudos fixo, cabe ao aluno planear quando fazer e quais exames fazer. Então, durante oito meses, que foi o tempo que levei a completar os 14 exames, o meu dia a dia resumiu-se a estudar o dia todo, apenas com uma pausa para fazer exercício físico. Confesso que foi uma abordagem um pouco agressiva, mas o objetivo era acabar no menor tempo possível e sem menosprezar o resultado dos exames”, admite.
Já com a licença de piloto ‘na mão’, há sensivelmente três anos decidiu concorrer à Qatar Airways, a companhia aérea de bandeira do Qatar. “A grande maioria das empresas está constantemente a contratar devido à necessidade cada vez maior de pilotos. Tinha colegas que estavam no Qatar e recomendaram-me. Assim que preenchi todos os requisitos exigidos, enviei o currículo e fui chamado para uma entrevista”.
Conhecido por ser um país de grandes contrastes entre tradição e modernidade, o Qatar revelou-se uma surpresa positiva para o feirense, tanto a nível pessoal, como profissional. “Inicialmente, houve uma fase natural de ajuste ao novo contexto cultural e às dinâmicas de trabalho locais, mas rapidamente percebi que o ambiente internacional oferece uma excelente oportunidade de crescimento”.
O impacto da guerra
O recente conflito no Médio Oriente teve efeitos diretos na aviação global, sobretudo no dia a dia dos pilotos cujas companhias estão sediadas nos territórios que foram alvo de ataques de mísseis iranianos. O espaço aéreo tornou-se instável e as companhias reduziram automaticamente o número de voos diários. O piloto não passou incólume. “No plano profissional, o efeito foi inevitável e profundo. Muitos voos foram cancelados, o que me levou a trabalhar só quatro dias no mês de março, por exemplo. A redução drástica, aliada à incerteza sobre o futuro, criou um natural nervoso miudinho e ansiedade”, confessa.
Já no que concerne à vida familiar, “tranquilidade” é a palavra de ordem, depois da curta ‘tempestade’ inicial. “Os primeiros três/quatro dias foram de maior apreensão, especialmente devido aos alertas constantes recebidos nos telemóveis sempre que surgia uma ameaça. No entanto, adaptámo-nos rapidamente e nunca senti que a segurança da minha família ou a minha estivesse comprometida. Pessoalmente, acho que houve algum sensacionalismo na cobertura do conflito. Em tom de brincadeira, eu e a minha esposa comentámos que nos sentíamos mais protegidos em Doha durante este período do que em qualquer cidade europeia em circunstâncias normais”, partilha, mostrando-se, de seguida, otimista em relação ao futuro das operações aéreas.
A capital, Doha, é frequentemente vista como uma das cidades mais seguras da região, um dos motivos pelos quais Miguel Costa desdobra-se em elogios ao país que o acolheu. A par da limpeza. “As ruas estão sempre super limpas e há zero preocupações à noite, porque o nível de segurança é altíssimo. Existe, por exemplo, o hábito das pessoas em cafés deixarem o telemóvel ou a carteira em cima da mesa, enquanto vão fazer o pedido, para reservarem mesa”, conta.
No entanto, apesar do nível de segurança, do skyline futurista, com grandes arranha-céus, e das infraestruturas de última geração, Doha continua enraizada nas suas tradições culturais e religiosas. Os souqs, como o tradicional mercado Souq Waqif, preservam práticas comerciais antigas, onde se vendem especiarias, tecidos e artesanato. A hospitalidade árabe, os trajes tradicionais, como a abaya e o thobe, e a importância da religião islâmica na vida social continuam a moldar o comportamento e os valores da população. “A importância dada à religião é visível e é uma diferença muito grande [em comparação com a Europa]. O Qatar, embora sendo na sua maioria composto por estrangeiros, mantém ainda uma identidade muito própria, com tradições muito vincadas. No Ramadão, durante o dia, todos os restaurantes estão fechados e é proibido comer ou beber em público, mesmo para os não muçulmanos”.
O clima é outro fator marcante. Durante grande parte do ano, especialmente no verão, as temperaturas podem ultrapassar facilmente os 40 °C. “O Qatar tem um clima desértico extremo, onde as temperaturas atingem perto dos 50 graus. Ou seja, é um país que oferece modernidade e prosperidade financeira – o custo de vida elevado é mitigado por salários altos e livres de impostos –, mas exige adaptação ao clima e à cultura”, resume.
“Tenho uma ligação profunda à Feira”
A viver a terceira experiência internacional, Miguel Costa acredita ter uma maior capacidade de adaptação, empatia e resiliência, habilidades que julga serem “fundamentais em contextos globais”.
Adaptado ao modo de vida do Médio Oriente, com rotinas já bem definidas, consegue conciliar a vida profissional com momentos de lazer, proporcionados também pela grande oferta existente neste parâmetro: Doha soma centros comerciais luxuosos, restaurantes internacionais e eventos culturais e desportivos. Momentos que partilha com a família, mas também com os (muitos) portugueses residentes no Qatar, que amenizam as saudades de ‘casa’ e fazem-no sentir mais perto da terra natal. Ainda assim, duas a três vezes por ano, apanha um voo com destino a Portugal, para que os pais criem memórias com o neto e para fugir ao calor extremo. “Tenho uma ligação profunda a Santa Maria da Feira. É a minha terra natal, onde tenho família direta e um círculo de amigos que cultivo apesar da distância. Visito com regularidade e normalmente no verão, para escapar ao calor do Qatar e para permitir que os meus pais desfrutem de tempo com o neto”. Sendo a esposa de nacionalidade inglesa, as férias em família têm de ser divididas entre os dois países, porém Santa Maria da Feira vai na frente: “ela própria prefere o tempo mais ameno e acolhedor do nosso país, o que torna cada regresso especial”.











