Trinta corpos cobertos por tecidos neutros, revelando apenas os mamilos, vão percorrer o centro histórico de Santa Maria da Feira, numa performance coletiva que desafia normas sociais e questiona a forma desigual como o corpo feminino continua a ser percecionado no espaço público
A iniciativa acontece no âmbito do Imaginarius, por via da ação coletiva ‘MAMIL(a)S’, criação da companhia brasileira Desvio Coletivo, que será apresentada no centro histórico de Santa Maria da Feira, durante a edição de 2026 do festival.
A intervenção artística envolve participantes maiores de idade e com identidades diversas, independentemente da experiência artística, reforçando o caráter inclusivo e plural do projeto.
Na performance, “três dezenas de corpos integralmente cobertos por tecidos que escondem marcas de género vão revelar apenas um detalhe a quem passa: os mamilos”, explica a organização do festival. A proposta artística pretende evidenciar “uma contradição profunda” relacionada com a exposição pública do corpo, já que “o gesto continua a ser lido de forma desigual se protagonizado no masculino ou no feminino”.
Depois de, em 2017, ter apresentado no Imaginarius a performance CEGOS, o coletivo brasileiro regressa agora a Santa Maria da Feira com uma nova criação de forte intervenção social e política, centrada nas limitações e formas de vigilância impostas ao corpo feminino no espaço urbano.
Segundo a organização, “MAMIL(a)S propõe-se questionar de forma poética leituras normativas da presença no espaço urbano, valorizando o coletivo como gesto de celebração e afirmação”.
O projeto incluiu um processo de preparação artística e reflexão coletiva antes da apresentação pública. Foram previstas conversas sobre liberdade, presença no espaço público e criação artística, bem como ações de reconhecimento do território e sessões de preparação física através de exercícios performativos.
“A participação nesta performance implica um processo de construção personalizado em cada território, que articula momentos de reflexão, preparação e contacto direto com o espaço urbano”, refere a organização.
A intervenção pretende também lançar um debate mais profundo sobre desigualdade no acesso e vivência da cidade. “Caminhar pela cidade não é um gesto neutro. Para alguns, é um direito adquirido; para outros, exposição constante, vigilância e risco”, sublinha o texto de apresentação da iniciativa.
A companhia brasileira defende ainda que a ação artística “vai instalar-se neste desequilíbrio estrutural, revelando como o espaço urbano continua a regular quem o pode ocupar, atravessar e permanecer sem ser interpelado”.
Na página oficial do Desvio Coletivo, a performance é definida como “um manifesto sobre o direito à cidade — e ao próprio corpo — escrito com pele, movimento e rebeldia”, lançando a pergunta: “Até quando a presença feminina no espaço público será tratada como transgressão e não como potência?”.











