“Urge analisar os limites da tecnologia”
Entrevista

“Urge analisar os limites da tecnologia”

Começou a escrever ‘A Cidade do Bem – Mortes irracionais’ em 2007, mas o manuscrito ficou guardado durante quase duas décadas. Em 2025, António Castanheira, que assina como Anthony Casten, encontrou o projeto numa gaveta e decidiu concluir a história que imaginara anos antes. O resultado é uma obra que cruza investigação criminal, suspense e ficção especulativa, com o objetivo de levar os leitores a refletirem sobre tecnologia, vigilância, ética e livre-arbítrio. Em entrevista, o autor natural da Beira Alta e residente em Santa Maria da Feira desde os 12 anos, fala da génese da obra, do longo caminho até à publicação e dos limites da tecnologia.

CF – ‘A Cidade do Bem – Mortes irracionais’ começou a ser escrito em 2007. Como nasceu este projeto literário e o que o levou a retomá-lo quase duas décadas depois?

António Castanheira – Surgiu numa altura em que tinha começado a escrever alguns poemas, o que me fez desenvolver o gosto pela escrita dia após dia. Sentia-me muito bem a escrever. Em simultâneo, e porque tinha tempo disponível, dedicava-me a aprender mais sobre psicologia. E foi precisamente quando estudava o sistema nervoso central e o cérebro – que se divide em quatro lobos –, que me surgiu a ideia de implementar um chip no lobo frontal, mais precisamente no córtex pré-frontal, que monitorizasse as emoções e reações das pessoas. A partir daí, como tenho uma mente fértil na criação de cenários, tudo se foi desencadeando normalmente e decidi começar a escrever o livro.

Só que antes de concluir o livro, deixei de ter tempo disponível para me dedicar à escrita da forma como o fazia. No final de 2025, ao remexer numa gaveta, onde tinha o livro impresso, embora incompleto tinha vários exemplares, lembrei-me de, finalmente, concluir os capítulos que faltavam. E assim foi.

O livro aborda uma cidade experimental onde o Bem é o valor supremo. Os habitantes vivem sob a vigilância permanente de um implante cerebral capaz de monitorizar as suas emoções e detetar comportamentos considerados inapropriados. O enredo mudou muito desde a ideia original? Reescreveu grande parte ou procurou manter a versão original?

Tudo foi fiel à ideia original. O desenrolar dos acontecimentos ficou logo definido. Apenas concluí o que já estava planeado e faltava ‘passar para o papel’. Não senti necessidade de reescrever.

A ideia principal partiu da questão: “será possível impor ou programar a bondade?” Que resposta procura dar através da narrativa? Pretende desafiar o leitor a refletir sobre o mundo em que vive?

Sim, a ideia principal é levar o leitor a pensar sobre o referido assunto. Analisar o seu comportamento, quer a nível individual, quer ao nível da comunidade onde está inserido. Até que ponto a sociedade atual manifesta amor por tudo e todos que nos rodeiam? Não podemos viver sempre em modo ‘automático’, precisamos de ter momentos de reflexão, de analisarmos as nossas emoções, pensamentos, reações e questioná-las, com o objetivo de nos tornarmos melhores pessoas.

“O livre-arbítrio é um dos pilares base da humanidade”

Uma das personagens principais do livro é confrontada com falhas num sistema considerado perfeito. Até que ponto essa investigação é também uma metáfora sobre a confiança que depositamos na tecnologia?

É um dos temas atuais. A nossa entrega quase por completo à tecnologia, é agora ainda mais atual do que em 2007, quando iniciei a escrita do livro. É um alerta. Dificilmente haverá um sistema perfeito criado através da tecnologia que não falhe em algo, nem que seja pelo fato de não sentir emoções.

A obra cruza investigação criminal, suspense e ficção especulativa com uma reflexão sobre tecnologia, vigilância, ética e livre-arbítrio. São temas que considera urgente discutir na sociedade atual?

Sim, urge analisar os limites da tecnologia. Não é de todo recomendável que nos retire o livre-arbítrio, que considero ser um dos pilares base da humanidade, e que se sobreponha aos valores fundamentais da nossa sociedade.

Mostra especial interesse pelas questões relacionadas com a natureza humana e a evolução da sociedade. Como descreve o seu estilo literário?

Não tenho um estilo literário definido; posso abordar temas diversos inerentes ao nosso modo de vida. No entanto, tenho uma aptidão natural para abordar conteúdos relacionados com a nossa essência e de como funciona o Universo.

Livro lançado em mais três idiomas

Com o livro ‘A Cidade do Bem – Mortes irracionais’ lançado, quais são os próximos desafios? Está a trabalhar num novo projeto literário?

Ainda não penso no próximo livro, que provavelmente será sobre um novo evento na ‘Cidade do Bem’. Por agora, preciso de divulgar ‘A Cidade do Bem – Mortes irracionais’ para atingir a projeção que ambiciono. Entretanto, vai ser publicado em mais três idiomas – inglês, francês e espanhol – e vendido para todo o mundo através da Amazon [loja online].

Como concilia a escrita com a vida profissional e pessoal?

Foi precisamente por ter começado a ter uma vida profissional exigente que não terminei de escrever o livro em 2007. Neste momento, volto a ter mais tempo disponível para realizar outras tarefas ou encarar novos desafios.

É natural da Beira Alta, mas residente em Santa Maria da Feira. De que forma o Concelho e a região fazem parte e/ou o moldaram enquanto escritor?

Vim para Santa Maria da Feira quando tinha 12 anos, portanto foi neste Concelho que consolidei os meus conhecimentos e que conheci pessoas que acabaram por me influenciar. Adoro viver no Município e não me vejo a morar noutro local.

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